Sergio Mattarella fechou a cerimônia de inauguração do ano acadêmico da Universidade de Trento e a solenidade de batismo da Biblioteca Universitária Central com palavras que ligam passado e presente: em tempos difíceis, a figura de Alcide De Gasperi continua relevante e a defesa da cultura é a resposta mais eficaz contra o retorno de elementos de barbarie nas relações internacionais.
O presidente da República sublinhou que, diante dos riscos de retrocessos nas formas de convivência entre Estados e povos, o caminho a seguir é “elaborar, aprofundar, desenvolver e transmitir cultura”: uma afirmação que, na voz de Mattarella, funciona como um chamado prático para a construção de alicerces civis mais firmes. Como repórter que busca traduzir o peso da caneta em consequência real para cidadãos, lembro que essa linguagem remete à ideia de erigir uma ponte entre instituições e sociedade — a arquitetura do voto e da memória pública que sustenta a vida democrática.
Mattarella lembrou também o simbolismo temporal da homenagem: estamos no oitantesimo ano da República e Alcide De Gasperi foi, segundo o chefe do Estado, “o primeiro capo” desse novo capítulo institucional — uma referência ao papel decisivo que De Gasperi desempenhou nas semanas iniciais da República. No percurso das visitas ao Quirinale, disse o presidente, existe uma sala que documenta a história republicana começando justamente com a figura de De Gasperi, o “primeiro capo”.
A nomeação da biblioteca — projeto assinado por Renzo Piano — para estudantes e pesquisadores carrega múltiplos sentidos: é um espaço físico pensado para aprofundamento intelectual, mas também um monumento que lembra identidades locais e trajetórias humanas. Mattarella destacou a identidade trentina de De Gasperi e recordou episódios que vão além da retórica institucional: o trabalho do futuro estadista na biblioteca vaticana, assegurado pela Santa Sé, e a proteção daquele emprego por parte do Papa Pio XI frente às pressões do regime fascista.
Há ainda uma nota silenciosa sobre a resistência cultural do líder cristão-democrata: em anos em que não podia sequer assinar seus textos, De Gasperi publicou um livro com o pseudônimo de Mario Zanatta — obra citada por Mattarella como “I suoi tempi e gli uomini che prepararono la Rerum novarum” — gesto que evidencia como a produção intelectual e a preservação da memória foram instrumentos de participação cívica mesmo sob constrangimentos.
O ato em Trento, portanto, não é apenas uma inauguração: é um lembrete de que investir em bibliotecas, centros de estudo e memória é reforçar os alicerces da cidadania e derrubar barreiras burocráticas e culturais que facilitam o avanço da intolerância. Na minha leitura, enquanto jornalista comprometido com a ponte entre Roma e a vida real, a homenagem a Alcide De Gasperi traduz uma lição clara para administradores públicos e para a sociedade civil: preservar e expandir espaços de conhecimento é proteger a democracia.
Em termos práticos, a Biblioteca Universitária Central, assinada por Renzo Piano, passa a ser, oficialmente, um lugar para estudantes aprofundarem a reflexão, um canteiro de construção de direitos que liga o passado histórico ao presente urgente. Mattarella encerrou destacando o valor profético da cultura em tempos de crise — um aviso que, se levado a sério, exige políticas públicas e engajamento social para que os princípios que moldaram a República não fiquem apenas nos retratos do Quirinale, mas vivam nos corredores das universidades.






















