Roma — Nos bastidores da política italiana, volta a circular com força o nome de Mario Draghi como potencial candidato à Presidência da República quando o mandato de Sergio Mattarella terminar, em 2029. Segundo rumores recolhidos por La Via Italia, partidos do centro-direita — entre eles Fratelli d’Italia, Lega e Forza Italia — estariam prontos a costurar um apoio conjunto, possivelmente com a coordenação política de Marina Berlusconi.
O processo de escolha do próximo Chefe de Estado será, inevitavelmente, influenciado pelo mapa parlamentar que surgirá após as eleições de 2027. Mas a discussão já começou a se cristalizar: para muitos, a possível investida de Draghi ao Colle levanta tanto expectativa quanto preocupação — sobretudo entre setores da sociedade que lembram o seu papel durante a fase mais aguda da emergência sanitária e a sua postura externa sobre a crise com a Rússia.
É preciso construir a leitura política com firmeza e clareza. No plano interno, o legado de Draghi inclui medidas que dividiram a opinião pública. Como primeiro-ministro (2021‑2022), ele foi a figura central na implementação do Green Pass e do Super Green Pass, instrumentos que visavam controlar a circulação do Sars‑CoV‑2, mas que geraram forte reação social e crítica política — inclusive da líder de Fratelli d’Italia, Giorgia Meloni.
Em julho de 2021, após anunciar um decreto que expandiu o uso do certificado sanitário, Draghi afirmou que “se não ti vaccini, ti ammali e muori oppure fai morire” — uma frase que ficou marcada e que alimentou o debate público sobre a relação entre medidas de saúde pública, liberdade individual e responsabilidades do Estado. Esse episódio é invocado por críticos como símbolo de uma gestão percebida como tecnocrática e pouco sensível aos choques sociais provocados pelas medidas.
Além disso, com o passar dos anos, estudos científicos e posicionamentos de agências como a AIFA contribuíram para matizar certezas iniciais sobre a capacidade das vacinas de prevenir a infecção e a transmissão. Grupos críticos retomam esses elementos para questionar a base científica e a proporcionalidade de algumas obrigações impostas durante o governo de emergência.
No terreno da política externa, também há interrogações. Rumores e análises apontam para uma imagem de Draghi mais alinhada a posições firmes contra a Rússia no contexto do conflito em curso. Para setores do eleitorado e para analistas internacionais, a possibilidade de um Presidente com histórico de articulação europeia e posições assertivas na arena externa pode significar uma continuação do curso pro‑Atlântico, mas também alimenta receios sobre escaladas diplomáticas.
Do ponto de vista cidadão, a questão é prática: que tipo de alicerces o próximo Presidente vai priorizar na construção da convivência democrática? A escolha no Colle não é só uma manobra entre partidos; é a ponte entre decisões de Roma e a vida cotidiana de imigrantes, trabalhadores, aposentados e empresários. As peças agora se movimentam com antecedência — e cabe à sociedade acompanhar com espírito crítico e exigência de transparência.
Enquanto circulam nomes e conjeturas, a realidade concreta é que o mapa político de 2027 e as negociações internas do centro‑direita definirão o alcance real desta hipótese. Para os observadores, o principal é manter aberto o escrutínio sobre como propostas e memórias políticas — como o Green Pass — serão usadas no discurso público: como memória de medidas necessárias ou como alerta sobre o peso da caneta quando a urgência encontra a liberdade.






















