O atrito histórico entre Roma e Paris voltou a ganhar destaque com mais uma troca de farpas públicas entre o presidente francês Emmanuel Macron e a primeira‑ministra italiana Giorgia Meloni. Desde a chegada de Meloni a Palazzo Chigi, as divergências entre os dois líderes tornaram‑se um dos fios condutores na relação bilateral, com choques em temas que vão da política interna à visão europeia e ao alinhamento transatlântico.
O episódio atual tem origem nas declarações feitas pela premiê italiana sobre a morte do ativista nacionalista francês Quentin Deranque, assassinado em Lyon na semana passada, caso que continua a provocar intenso debate público na França. Em Nova Délhi, onde participava de uma visita oficial à Índia, Macron respondeu com ironia e contundência às observações de Meloni, pedindo que a chefe do governo italiano não “comente” assuntos internos franceses: “Que ognuno resti a casa sua e le pecore saranno ben custodite”, declarou o presidente.
O tom da fala de Macron — “sempre me surpreende ver que as pessoas nacionalistas, que não querem ser perturbadas em casa, são as primeiras a comentar o que acontece na casa alheia” — inflamou a troca diplomática e colocou em evidência, mais uma vez, as linhas de fratura ideológica entre os dois governos.
Em reação às palavras do líder francês, fontes de Palazzo Chigi disseram ter recebido as declarações com “stupore”. As mesmas fontes lembraram que a presidente do Conselho “expressou seu profundo cordoglio e a sua costernazione” pela morte de Quentin Deranque, condenando o clima de ódio ideológico que, segundo ela, atravessa várias nações europeias. Em suma, explicaram, as observações de Meloni tinham caráter de solidariedade ao povo francês e não configuração de intromissão nos assuntos internos de outro Estado.
Na esteira da polêmica, figuras políticas francesas reagiram. Marion Maréchal, sobrinha de Marine Le Pen e vice‑presidente do Partido dos Conservadores e dos Reformistas Europeus (ECR), afirmou em X que Macron não teria a sensibilidade política para entender que, para Meloni e para a Itália, a violência política contra um jovem ativista de direita tem uma ressonância particular.
Também se manifestou o vice‑primeiro‑ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, Antonio Tajani, lembrando que “a morte de um jovem ativista, sobretudo em ambiente universitário, é um facto grave que diz respeito a todos” e que episódios deste tipo exigem uma condenação inequívoca. Tajani evocou, sem rodeios, episódios dolorosos da história italiana, lembrando que “houve muitos Quentin em Itália” e que a memória desses fatos impõe vigilância contra o recrudescimento do ódio.
Este novo capítulo no embate Roma‑Paris revela, mais do que um confronto entre duas figuras, a fragilidade dos alicerces diplomáticos quando o debate sobre violência política atravessa fronteiras. A resposta pública de Macron e a reação de Palazzo Chigi testam, na prática, a capacidade de construir pontes institucionais que preservem o respeito mútuo, sem que a caneta do diplomata pese sobre o debate interno de outro país.
Enquanto isso, a investigação sobre o caso Quentin Deranque prossegue em França e o episódio continuará a servir de parâmetro para medir até que ponto discursos políticos transnacionais podem influenciar relações bilaterais já tensionadas. Para os cidadãos europeus, a lição é clara: derrubar as barreiras burocráticas e fortalecer os mecanismos de cooperação é parte da construção de direitos que impede que a violência política se transforme em norma.





















