Por Giuseppe Borgo — Em um gesto simbólico e contestatório, ativistas do movimento Non Una di Meno despejaram letame em frente ao escritório milanês da senadora Giulia Bongiorno. O ato, reivindicado em vídeo publicado nas redes sociais, insere-se no calor do debate parlamentar em torno do projeto de lei sobre violência sexual, cujo andamento tem provocado forte polarização política nas últimas semanas.
Segundo o vídeo divulgado pelo próprio grupo, a ação teve caráter demonstrativo. Não há, até o momento, informações oficiais sobre prisões ou ações judiciais relacionadas ao episódio. A cena, porém, rapidamente ultrapassou o espaço físico do edifício e ganhou dimensão simbólica e midiática, alimentando o confronto entre protesto de rua e resposta institucional.
A reação dos responsáveis políticos foi imediata e uníssona no tom de reprovação. Pierantonio Zanettin, líder de Forza Italia na Commissione Giustizia a Palazzo Madama, declarou sua “piena e totale solidarietà” à presidente da Comissão e definiu o gesto como “volgare” e inaceitável. O quadro de representantes do centro-direita descreveu o episódio como um ataque indecoroso à figura parlamentare di Bongiorno e solicitou uma condenação de caráter bipartidário.
O presidente della Camera, Lorenzo Fontana, qualificou o ato como “vergognoso” e “offensivo”, lembrando que o dissenso deve ser exercido “nel rispetto delle persone e delle istituzioni”. No Senado, o presidente Ignazio La Russa falou em “grave e volgare gesto” e ofereceu “piena solidarietà” à senadora, em nome dell’intero ramo legislativo.
Também se manifestaram a senadora Michaela Biancofiore, presidente do grupo Civici d’Italia, e membros da Lega, que falaram em “ignobili attacchi” e em superamento dos limites da legítima discussione democrática. As declarações oficiais destacam a preocupação com a escalada retórica em torno de um tema sensível, a violência de gênero, e pedem a restauração do respeito institucional no debate público.
Por outro lado, o movimento Non Una di Meno defende o protesto como resposta a escolhas políticas que, em sua visão, não enfrentam com suficiência as necessidades das vítimas e que deixam lacunas na proteção efetiva. O gesto — crú, direto e provocador — visa também forçar a opinião pública e os decisores a voltarem o olhar para o que o coletivo aponta como insuficiências na legislação.
Este episódio é um reflexo dos alicerces ainda frágeis sobre os quais se constrói o diálogo público em torno de temas de grande impacto social. A política, como obra em construção, experimenta tensões entre a pressão das ruas e o peso da caneta no Parlamento. Resta saber se a resposta institucional será capaz de transformar o choque em ponte — ou se o episódio aprofundará ruídos que dificultam a aprovação de medidas eficazes contra a violência sexual.
Enquanto o debate segue, o caso reabre questões práticas sobre os limites da manifestação, a segurança de representantes eleitas e a necessidade de canais institucionais que permitam a crítica sem descambar para atos que muitos consideram ofensivos. Aguardam-se desdobramentos formais e, possivelmente, iniciativas de investigação ou processos administrativos que esclareçam responsabilidades.
Como repórter que atua como ponte entre Roma e a vida cotidiana dos cidadãos, registro que o episódio mostra tanto a força simbólica dos protestos quanto a fragilidade do terreno em que se assentam as decisões públicas. Na construção de direitos, vencer a polarização e derrubar barreiras burocráticas é tão necessário quanto fiscalizar quem detém o peso da caneta.






















