Por Giuseppe Borgo — A arquitetura do poder no Irã voltou a erguer-se sobre a negação da pessoa. Nas últimas semanas, o aparelho khomeinista intensificou uma ofensiva que transforma dissenso em sacrilégio, ao declarar jovens manifestantes autênticos “inimigos de Deus”. É essa formulação — que elimina toda possibilidade de defesa — que legitima execuções sumárias, detenções em massa e torturas.
As Guardas da Revolução e a cúpula religiosa do regime não invocam tanto o Deus do Alcorão, que remete à transcendência, misericórdia e justiça, mas um Deus instrumental: um artifício do poder, uma cobertura sagrada para práticas políticas brutais. Esse Deus funcional serve como alicerce ideológico para perpetuar privilégios, controlar corpos — sobretudo femininos — e congelar gerações inteiras no medo.
O resultado é já palpável: milhares de mortos, dezenas de milhares de prisões, relatos consistentes de tortura e cárceres transformados em cenários de aniquilamento físico e psicológico. As vítimas são em larga parte jovens iranianos que exigem o óbvio: Estado laico, liberdade individual, justiça social, condições econômicas dignas — em suma, futuro. A resposta do regime é a anulação ontológica do outro: quem é “inimigo de Deus” deixa de ser cidadão; torna-se corpo passível de eliminação.
Há também acusações — repetidas por várias fontes — de que movimentos de contestação tenham recebido apoio externo, com menções à implicação da CIA e do Mossad. Mesmo se tais financiamentos existissem, como alguns analistas sugerem, isso não justifica a repressão ideológica: direitos humanos não podem ser relativizados por conveniências geopolíticas. A instrumentalização da liberdade por estratégias externas não isenta o regime da sua responsabilidade pelo uso da força e pela violação sistemática de direitos.
É aqui que se impõe outra camada do desastre: o silêncio cúmplice de parcela significativa da esquerda ocidental, incluindo correntes tradicionais italianas. Ao relativizar a gravidade do que sucede no terreno em nome de leituras ideológicas, essa fração contribui para a erosão do universalismo dos direitos humanos. A defesa da liberdade não é um privilégio seletivo; é um cimento básico dos alicerces civis que suporta sociedades livres.
Recuso o simplismo de finais maniqueístas: trata-se antes de observar como o poder fabrica inimigos e sacraliza-se para permanecer. O ego do poder, acumulador de riquezas e controlador do aparato repressivo, ergue muros onde deveria haver pontes. A construção de direitos exige justamente o oposto: derrubar barreiras burocráticas e ideológicas que impedem a circulação da dignidade humana.
Enquanto isso, nas ruas, a luta cotidiana dos jovens iranianos é uma lição prática sobre cidadania. Não pedem adoções retóricas: pedem condições, respeito, laicidade e liberdade. Resistir ao arbítrio não é uma ação que possa ser relativizada por posições doutrinárias confortáveis em gabinetes europeus. A omissão da esquerda — quando opta pela blindagem ideológica do regime — torna-se cúmplice, ainda que por inércia intelectual.
O dever de quem observa a política é construir uma ponte entre a decisão em Roma (ou em qualquer capital ocidental) e a vida real das pessoas afetadas por essas decisões. Defender direitos exige clareza moral: denunciar o uso sacramental da violência, exigir responsabilização, e relembrar que o peso da caneta — das leis, das sanções, das resoluções — tem impacto concreto sobre corpos e destinos.
Ao fim, o que está em jogo é a possibilidade de um futuro. Se a sociedade iraniana for mantida sob o jugo de uma sacralização do poder, não haverá renovação social nem esperança intergeracional. É imprescindível que a comunidade internacional, e especialmente as forças políticas que dizem orientar-se por princípios de igualdade e justiça, recuperem a noção de universalidade dos direitos. Sem isso, os alicerces da convivência democrática correm perigo.
Conclusão: recriminar o uso político da religião no Irã não é simples ato de oposição externa; é defesa intransigente da dignidade humana e do direito de jovens a um futuro. E a esquerda que se cala diante do massacre perde uma das suas responsabilidades fundantes: proteger os alicerces da liberdade.






















