Por Giuseppe Borgo, Espresso Italia
As declarações do procurador de Catanzaro, o doutor Nicola Gratteri, sobre quem votará no próximo referendum sobre a giustizia reacenderam um debate que não é apenas jurídico, mas essencialmente cívico. Ao afirmar que votarão Sì os “indagati, gli imputati, la massoneria deviata e tutti i centri di potere”, o magistrado traçou, intencionalmente ou não, uma linha de demarcação que pode transformar opiniões políticas em rótulos públicos e, na prática, em listas de proscrição.
Como repórter dedicado a traduzir as decisões de Roma e de suas instâncias judiciais para o cidadão comum, vejo aqui algo mais que um comentário áspero de bastidores: há o risco concreto de que o discurso de uma alta autoridade pública funcione como instrumento de pressão sobre a escolha individual. Em termos arquitetônicos, é como se o peso da caneta de um representante das instituições começasse a deslocar os alicerces da liberdade de voto, construindo muros invisíveis entre quem é considerado “pessoa perbene” e quem é automaticamente suspeito.
O efeito prático já se manifesta na experiência de muitos: profissionais do direito, ativistas, eleitores com convicções críticas — que não são necessariamente “delinquenti” — relatam constrangimento e um sentimento de potencial exclusão. O autor original destas palavras, Giancarlo Cipolla, descreveu esse desconforto com força: após décadas de carreira, sentir-se cogitado como parte da “massoneria deviata” ou da lista de proscrição é uma ferida à dignidade cívica.
Do ponto de vista jurídico, a questão não é trivial. Pode um magistrado, titular de um cargo que o Estado confia justamente para garantir a imparcialidade do processo, emitir juízos com potencial impacto político e social de tal envergadura? Existe aqui um risco de invasione di campo — para usar um termo caro ao debate — que merece atenção institucional. A separação entre magistratura ativa (inquirente) e magistratura julgante é, aliás, um dos temas centrais do próprio referendo: os eleitores estão chamados a decidir sobre mecanismos que tocam os alicerces da administração da Justiça.
Além do impacto imediato sobre a liberdade de voto, as palavras do procurador alimentam uma atmosfera de suspeição generalizada que pode contaminar o processo democrático. Eleitores podem sentir que suas escolhas serão lidas como prova de pertencer a categorias repulsivas. Esse clima corrói a confiança nas instituições e cria uma ponte perigosa entre discurso público e discriminação tácita.
Há duas dimensões que precisamos separar com clareza: a legítima defesa do Estado de direito, contra qualquer tentativa de obstrução da Justiça; e a defesa, igualmente legítima, da liberdade de pensamento e do voto secreto, que são as vigas mestras da democracia. Derrubar barreiras burocráticas e promover uma justiça mais eficiente são objetivos que se sustentam por si só e não justificam a construção de listas de suspeitos baseadas em opiniões políticas.
Como correspondente, não tenho por função promover pânicos, mas sim abrir janelas de compreensão e alerta. Pergunto: as instituições competentes vão se pronunciar sobre a responsabilidade de um magistrado ao emitir juízos de impacto público? E, sobretudo, como garantiremos que o eleitor possa votar sem medo de ser enquadrado em categorias estigmatizantes?
O eleitorado merece mais do que slogans: merece mecanismos claros que protejam a liberdade de voto e a dignidade individual. A arquitetura da cidadania não se constrói com certezas absolutas sobre quem pertence ao bem e ao mal; ela se sustenta na pluralidade, no respeito e na proteção do segredo do voto. É essa ponte entre as instituições e a sociedade que devemos reconstruir com urgência, antes que o peso da retórica comprometa os alicerces da democracia.
Giuseppe Borgo – Espresso Italia





















