Por Giuseppe Borgo – Em uma declaração que virou foco de uma tempestade política, o procurador de Nápoles, Nicola Gratteri, afirmou em entrevista que, no próximo referendum, votarão pelo ‘sì‘ os “indagados, gli imputati, la massoneria deviata e tutti i centri di potere” — e que, em contrapartida, votarão pelo ‘no‘ “as pessoas de bem” que têm na legalidade um pilar para a mudança na Calábria. A frase gerou reação imediata e unificada das forças políticas que sustentam o governo.
O episódio traz à tona o peso da caneta e da palavra na arquitetura do debate público: quando um magistrado de destaque lança uma generalização sobre eleitores e sobre estruturas sociais, as fundações da confiança entre instituições e cidadãos tremem. As respostas foram duras e espacadas por toda a coalizão governista.
O ministro da Justiça, Carlo Nordio, disse sentir “sconcerto” e chegou a sugerir que o procurador passasse por um “esame psicoattitudinale”. O líder da Liga e vice-premier, Matteo Salvini, reagiu com tom combativo: “Io lo denuncio. E voterò sì“. Em comunicado à noite, Gratteri afirmou que suas palavras foram “strumentalizzate”, buscando reduzir a tensão, mas sem retirar a declaração inicial.
Do lado dos partidos, as críticas foram unânimes e contundentes. O presidente do Senado, Ignazio La Russa, disse estar “basito”; o capogruppo di Fratelli d’Italia alla Camera, Galeazzo Bignami, qualificou as palavras como “indegne”; e o também capogruppo Lucio Malan lamentou que a fala “infanga anche persone di sinistra”. O ministro Tommaso Foti pediu que o procurador “recuperi il buonsenso”.
Outros dirigentes tocaram o mesmo alicerce: o ministro Paolo Zangrillo afirmou que quem tem dúvidas sobre a necessidade de votar sì deveria ler as declarações de Gratteri e decidir sem hesitação. O vice-ministro da Justiça, Francesco Paolo Sisto, chamou o episódio de “sconcertante”; Giorgio Mulè (Forza Italia) respondeu com ironia: “arrestateci tutti”; Pierantonio Zanettin falou em “irresponsabilità”; Raffaele Nevi acusou falta de medida por parte do magistrado; Antonio Tajani classificou as palavras como um ataque à liberdade e à democracia; e Maurizio Lupi as chamou de “dal sen fuggite”. Carlo Calenda (Azione) também considerou a declaração de “gravità incredibile”.
Os conselheiros laicos de centro-direita do Consiglio Superiore della Magistratura (CSM) já anunciaram que pedirão a abertura de uma pratica disciplinare ao órgão, movendo uma ação institucional contra o procurador.
Paralelamente, a coalizão do governo reforça a mobilização em torno do referendum marcado para 22 e 23 de março. Fratelli d’Italia realizará uma direção para coordenar as iniciativas a favor do sì, com um evento em meados de março que pode contar com a participação da primeira-ministra Giorgia Meloni. A Lega discutirá o tema em seu Consiglio federale e a Forza Italia estuda novas iniciativas, incluindo ações simbólicas em trens de alta velocidade, tema debatido em reunião com Tajani. O comitê “Sì riforma” organizou um convegno no tribunal de Milão, espaço carregado de significado para o debate sobre justiça.
Finalmente, a polêmica ganhou também as redes: um spot nas plataformas sociais do PD, incentivando o voto no, foi objeto de debate e intensificou a polarização na campanha.
Como repórter que observa a interface entre decisões de Roma e a vida cotidiana, vejo neste momento a montagem e o desgaste de uma ponte institucional: declarações públicas de autoridades judiciárias projetam sombras sobre processos democráticos e convocam respostas políticas que reforçam, por sua vez, a sensação de que a construção dos direitos ainda precisa ser protegida contra rachaduras retóricas. O calendário do referendo aproxima-se e as peças — instituições, partidos, magistrados e cidadãos — vão sendo realinhadas sob o peso da comunicação e da responsabilidade.






















