Em recente intervenção pública, o procurador Nicola Gratteri proferiu palavras duras contra quem pretende votar Sim no próximo referendo sobre a justiça. As declarações reacenderam a discussão sobre o tom do debate público e sobre como se deve arquitetar a contestação política num tema que toca diretamente os alicerces da vida cívica.
O colunista Diego Fusaro, em texto repercutido pela imprensa (Fonte: La Presse), considerou a abordagem de Gratteri como uma divisão maniqueísta: de um lado, os que votam Não seriam “gente per bene”; do outro, quem vota Sim seria associado a elementos moralmente suspeitos. Segundo Fusaro, Gratteri não chegou a dizer que todos os que votam Sim são pessoas de má conduta, mas sustentou que as pessoas de má conduta tenderiam a votar Sim.
Como repórter que observa a ponte entre as decisões de Roma e a vida quotidiana, é preciso desmontar essa moldura. A política pública e o processo de reforma da justiça não se erguem sobre rótulos morais simplistas. Há, em ambos os campos de voto, cidadãos bem-intencionados e cidadãos com agendas pouco claras — uma realidade que pulveriza qualquer tentativa de geolocalizar virtude ou vício exclusivamente por escolha eleitoral.
Fusaro, que declara que votará Não por receio de um maior controle governamental sobre a magistratura — elemento que remete diretamente à questão da separação de poderes e ao legado de Montesquieu —, reclama sobretudo uma ética discursiva: ideias se refutam com ideias, não com ataques à pessoa. A analogia é prática: quando faltam argumentos, derrubam-se paredes de caráter em vez de construir pontes de razão.
O problema central aqui é do foro público e do nível da argumentação. Reduzir a disputa a uma fórmula binária — os virtuosos versus os outros — empobrece o espaço democrático e afasta a população de uma análise técnica necessária sobre as reformas propostas. Em termos de cidadania, é imperativo que se debata o mérito das propostas: quais mudanças na arquitetura judicial trazem riscos efetivos à independência dos juízes? Quais trâmites aumentam a eficiência sem comprometer garantias fundamentais?
Criticar quem defende o Sim com base em ataques pessoais é um atalho perigoso. O rigor acessível que defendo exige que desmontemos ponto a ponto os argumentos a favor do Sim — e, da mesma forma, que se avaliem com cuidado os argumentos do Não. Há elementos legítimos de crítica às propostas que merecem ser explorados; por outro lado, há sinais de alarme quando se sugere maior subordinação da magistratura ao executivo.
Ao invés de empregar o peso da caneta para marcar culpas morais amplas, a tarefa democrática pede que se escave o conteúdo das reformas, que se exponham consequências práticas e que se ofereçam alternativas. Só construindo essa ponte de razões entre o legislador e o cidadão seremos capazes de derrubar as barreiras burocráticas e fortalecer os alicerces da lei.
Em suma: o debate público ganha em qualidade quando substituímos rótulos por argumentos. Se há muitas razões para contestar o Sim, que essas razões sejam – como deve ser — o centro da disputa.
Giuseppe Borgo – Espresso Italia






















