Giuseppe Borgo — Em tom de memória e análise institucional, o ministro da Economia Giancarlo Giorgetti voltou a recordar a figura de Roberto Maroni durante a apresentação, na Câmara, do volume “Roberto Maroni – Discorsi politici e parlamentari”. De gravata verde, a chamada “divisa di ordinanza”, Giorgetti traçou um retrato de Maroni que mistura episódios biográficos, raiz popular e estratégia política — os alicerces de uma trajetória que ajudou a moldar a Lega e a relação do movimento com as instituições.
Para explicar quem era Roberto Maroni, falecido em 2022, o ministro narrou três cenas simbólicas que, nas palavras de Giorgetti, ajudam a compreender o surgimento do movimento e o caráter do homem. A primeira lembrança remete a uma festa de vila em Cazzago Brabbia, onde os dois se encontraram: “Não era uma sede política, era a festa do meu pequeno país, que tem o mesmo número de habitantes da vila do Bobo Maroni, que não é Varese mas Lozza” — disse, apontando a origem profundamente popular do engajamento.
A segunda cena envolve música e costume locais: a banda Distretto 51, na qual Maroni tocava. A terceira memória descreve um encontro em Buguggiate, quando como secretário provincial Maroni apareceu com um impermeável que Giorgetti definiu como “improvável” — traços de uma figura que transitava entre o folclore local e a responsabilidade pública.
Outro momento narrado com clareza jornalística foi a imagem doméstica e humana: numa corrida podística, Giorgetti encontrou uma senhora em roupa de treino que o abraçou e disse ser “a mãe do Maroni” — um quadro que ilustra a conexão entre o político e as raízes populares que alimentaram a construção da Lega.
Do ponto de vista político e institucional, Giorgetti sublinhou a função de Maroni como uma “cerniera” — uma peça de conexão entre a política de movimento e a arquitetura das instituições. Segundo o ministro, Maroni possuía credibilidade e autoridade reconhecidas inclusive pelos adversários, uma qualidade que se revelou decisiva em momentos de crise.
Giorgetti destacou a inteligência de Maroni marcada por uma rara capacidade de ironizar e desdramaticizar, atributo que chamou de traço do “diritto ambrosiano” e do pragmatismo que perseguia grandes ideais, mas traduzidos em ação concreta com foco no resultado. “A política é um jogo de xadrez — e a diferença entre um muito bom e um menos bom é antecipar as consequências das próprias decisões”, afirmou, lembrando decisões difíceis tomadas ao lado de Maroni.
Entre os episódios institucionais citados, o ministro recordou o período das investigações sobre recursos do partido, quando Maroni não se esquivou da responsabilidade. Giorgetti também mencionou a escolha de Umberto Bossi, em 1996, de apontar Maroni para liderar iniciativas radicais como o governo da Padania — uma escolha que, paradoxalmente, conferiu credibilidade a um projeto até então mais imaginário do que real: “isso demonstra a estatura e a capacidade do Bobo”, disse.
Por fim, o ministro relembrou a passagem de comando dentro da Lega, confirmando que Maroni foi figura de ponte e de estabilização em momentos de transição. A narrativa de Giorgetti, firme e jornalística, constrói uma imagem de Maroni como um político que soube unir raízes populares, pragmatismo e visão institucional — os alicerces de um legado que ainda orienta debates sobre representação, responsabilidade e o peso da caneta na arquitetura do poder.
Giuseppe Borgo é repórter de política e cidadania da Espresso Italia, observador atento às estruturas que ligam Roma à vida cotidiana dos cidadãos.




















