O general Vannacci anunciou formalmente o lançamento do novo partido chamado Futuro Nazionale. A cisão em relação à Lega de Matteo Salvini, que vinha sendo anunciada há meses, agora é oficial. Diante desse quadro, a pergunta essencial é direta: o movimento recém-fundado representa uma verdadeira alternativa ao sistema político vigente ou é mais uma expressão dele?
Ao observar o perfil ideológico do fundador, é difícil sustentar a primeira hipótese. Não porque exista um suposto “traimento” posterior do líder, mas porque as posições já declaradas pelo general dão pistas claras sobre a matriz política que orienta o novo partido.
Primeiro ponto: a defesa explícita do livre mercado e do capitalismo como modo de produção indicam afinidades programáticas com correntes liberais consolidadas. Vannacci apresentou-se, desde o início, alinhado a uma visão liberista que lembra propostas de figuras como Giorgia Meloni — e, surpreendentemente, aproximável em termos econômicos até a algumas leituras mais moderadas do campo oposto, como as atribuídas a Elly Schlein. Seria, portanto, um projeto que não rompe com os alicerces econômicos do sistema, mas se insere nele.
Segundo ponto: a retórica patriótica invocada por Futuro Nazionale não se traduz, nas posições públicas do general, em uma contestação efetiva da dominação geopolítica dos Estados Unidos nem em um questionamento radical da arquitetura institucional europeia. O partido chama à defesa da pátria, mas aceita, sem críticas estruturais, a subordinação à NATO e, por extensão, a um ordenamento internacional orientado por Washington.
Isso levanta uma contradição difícil de reconciliar: como sustentar um discurso de soberania nacional enquanto se mantém intacta a aceitação de instrumentos e alinhamentos que limitam essa mesma soberania? Na linguagem da cidadania, parece faltar a ponte entre a enunciação do patriotismo e a reconstrução dos instrumentos concretos que garantiriam autonomia política e econômica.
Um projeto que se declare verdadeiramente antisistêmico teria, nas palavras da prática política, que desafiar o capitalismo em suas bases, propor alternativas ao dogma do “efeito de gotejamento” e repensar o papel da Itália no xadrez internacional — abrindo caminho para um multipolarismo que inclua relações responsáveis com Rússia e China, e uma leitura crítica da União Europeia enquanto arquitetura que, para muitos, reforça dependências.
À luz desses critérios, o diagnóstico é pessimista: Futuro Nazionale, tal como se apresenta, parece mais uma articulação nova do já existente — uma peça diferente numa mesma estrutura. Não se trata de negá-lo como força política; trata-se de situar seu lugar no cenário: não um rompimento com o sistema, mas uma nova face do partido capitalista multifacetado.





















