Por Giuseppe Borgo – Espresso Italia
O Procurador Nino Di Matteo reafirmou em Roma sua concordância com as observações do procurador de Catânia, Nicola Gratteri, sobre o clima político-jurídico em torno do referendo da justiça. Em evento de lançamento do livro do diretor do Fatto Quotidiano, Marco Travaglio — Perché No – Guida al Referendum su magistratura e politica in poche e semplici parole — Di Matteo foi categórico: “Estou perfeitamente de acordo com Nicola Gratteri. Junto com as pessoas de bem que votarão sim, votarão sim os maçons, os grandes arquitetos do sistema corruptivo e os mafiosos.”
O magistrado explicou que os autores da reforma partem de uma prática contínua de denigração da magistratura. “Quando somos bombardeados por notícias e juízos negativos sobre a magistratura — do caso Garlasco ao caso Tortora, até as histórias das crianças da ‘casa do bosque’ — fala-se mal da magistratura, delegitimando-a aos olhos do povo. Quem tem interesse nessa delegitimação são os maçons e os mafiosos. Quando os mafiosos, aqueles que raciocinam, percebem que uma força política pode carregar uma posição contrária à magistratura, já definiram por quem votar.”
Di Matteo recordou episódios históricos para ilustrar seu argumento: em 1987, quando partidos como o PSI e o Partito Radicale apoiaram a reforma sobre a responsabilidade civil dos magistrados, “os mafiosos ficaram tão entusiasmados que, mesmo mudando suas inclinações tradicionais, decidiram votar nos socialistas e nos radicais.”
Na sua análise, o voto favorável ao referendo se ancora na necessidade política de enfraquecer e deslegitimar a magistratura: “O sim parte do pressuposto de enfraquecer a magistratura, de denegri-la; a máfia precisa que a magistratura pareça delegitimada aos olhos do povo. É uma regra visível em toda experiência mínima de investigações e processos de máfia. Haverá, certamente, cidadãos de bem que votarão sim, mas, com base neste pressuposto, acredito que os mafiosos e os grandes criminosos votarão sim.”
A declaração provocou reação imediata no campo político. Giorgio Mulè, deputado de Forza Italia, vice-presidente da Câmara e responsável pela campanha pró-sim do seu partido, respondeu com veemência: “Lidas as palavras do procurador Nino Di Matteo, sente-se apenas uma grande e infinita pena. É o delírio de um inflamado animado por preconceito, que não respeita a inteligência e a história. Não vale a pena sequer refutar uma análise tão ridícula e superficial. Com o mesmo critério poderia afirmar-se que, nos anos 90, um prefeito de Palermo de esquerda, eleito com 75% dos votos, teria atraído para si os votos da máfia. Seria ridículo. Aqui, porém, estamos além e não há indignação que contenha tal infâmia.”
O episódio instala mais um bloco na construção de um debate já polarizado: de um lado, magistrados que alertam para o que consideram uma tentativa de minar os alicerces do sistema de justiça; do outro, políticos que interpretam críticas como ataques pessoais e generalizações inaceitáveis. A imagem que emerge é a de uma ponte cada vez mais estreita entre decisões legislativas e o impacto direto na confiança pública nas instituições.
Como repórter atento à intersecção entre Roma e a vida real dos cidadãos, observo que o peso da caneta na reforma — e o modo como essa reforma é comunicada — moldará não apenas o resultado do plebiscito, mas também a arquitetura futura da convivência democrática. Derrubar barreiras burocráticas ou, ao contrário, abrir brechas que fragilizem o controle judicial são questões que tocam os direitos civis e a segurança pública de forma tangível.
Seguiremos acompanhando os desdobramentos, com o olhar voltado para as evidências e para os efeitos práticos das propostas sobre a vida dos cidadãos, imigrantes e ítalo-descendentes que dependem do funcionamento imparcial da justiça.






















