Por Giuseppe Borgo — Em nova formulação do ddl em análise no Senado, desaparece do texto a palavra “consenso” e é introduzida uma distinção clara entre atos sexuais praticados “contra a volontà” da vítima e aqueles que envolvem também violenza, minaccia ou abuso di autorità. A alteração, proposta pela relatora e presidente della commissione giustizia, Giulia Bongiorno (Lega), reduz a pena prevista para os primeiros casos — de 4 a 10 anos de reclusione — enquanto mantém um escalonamento mais rigoroso (6 a 12 anos) quando houver violência, ameaça ou abuso de autoridade.
Segundo Bongiorno, a revisão busca garantir “o máximo de tutela” às vítimas em todas as circunstâncias possíveis, sem, porém, prejudicar as dinâmicas probatórias do processo penal nem o direito de defesa do acusado. A relatora argumenta que o texto aprovado pela Câmara, que mencionava a necessidade de um “consenso libero e attuale” para caracterizar a licitude do ato sexual, poderia levar a uma equiparação de situações distintas e impor ao réu ônus de documentar um consentimento prévio e detalhado — algo que, na visão dela, abriria caminho para uma potencial inversão do ónus da prova.
Na nova redação, o centro da norma é a verificação da “volontà contraria all’atto sessuale“, avaliada segundo a situação e o contexto em que o fato ocorreu. O crime também se configuraria quando o ato é praticado “a surpresa” ou quando o autor se aproveita da incapacidade da pessoa, nas circunstâncias concretas, de manifestar o próprio dissenso. A mudança pretende, nas palavras de Bongiorno, preservar a eficácia da tutela penal sem transformar o processo em um mecanismo que presuma automaticamente a falta de consentimento.
No entanto, as alterações provocaram uma reação enérgica da oposição. Para o centro-esquerda, trata-se de um “arretramento gravíssimo” em relação ao texto aprovado por unanimidade na Câmara, e há críticas de que a modificação representa a ruptura de um pacto político firmado entre a primeira-ministra e a líder do PD, Elly Schlein — o acordo que deu origem à iniciativa legislativa bipartidária contra a violência de gênero.
O Partido Democrático classificou a revisão como “um insulto às mulheres, às vítimas e à própria presidente do Conselho”, acusando a maioria de pressões internas e cedências à Lega que nunca acreditou plenamente na proposta originária. Alleanza Verdi e Sinistra (Avs) resumiu a mudança em termos fáceis: “do consenso passa-se ao dissenso“; para o Movimento 5 Stelle, as alterações representam “um gigantesco passo atrás” e um rompimento do compromisso político em defesa das mulheres.
Dentro da coalizão de governo, a reazione é mais cautelosa. Fratelli d’Italia preferiu não tomar posição imediata, anunciando uma discussão interna com o grupo; o capogruppo in commissione Giustizia, Gianni Berrino, afirmou que será feito um ponto de situação coletivo. Forza Italia mostrou-se alinhada com parte das propostas, pedindo diálogo para alcançar um texto compartilhado.
Do ponto de vista prático, a alteração tem implicações diretas na construção de provas em julgamentos por violência sexual: ao retirar a fórmula explícita do “consenso livre e atual”, a norma passa a depender mais da avaliação contextual da vontade da vítima, o que pode complicar ou orientar de modo diferente as instruções das autoridades judiciais e investigativas. É uma mudança que mexe nos alicerces da lei e na forma como as vítimas e os acusados veem o peso da caneta legislativa.
O desafio que se coloca agora é político: Bongiorno espera obter o “consenso de todas as forze politiche” para aprovar o texto como “um outro importante tassello normativo nella lotta contro la violenza di genere e il femminicidio”. A oposição, por sua vez, promete resistir com força, denunciando o que considera uma regressão normativa. O Senado terá, nas próximas votações, a tarefa de decidir se a arquitetura definitiva da norma seguirá a linha de diferenciação proposta ou retornará ao enfoque centrado no consenso explícito definido pela Câmara.






















