Por Giuseppe Borgo — Em mais uma encruzilhada entre jornalismo e poder, as mensagens de WhatsApp trocadas entre Sigfrido Ranucci e Maria Rosaria Boccia voltaram ao centro de um debate público que extrapola fofocas e atinge os alicerces da lei sobre privacidade e transparência. Trechos desses diálogos foram divulgados pelo jornal Il Giornale e passaram a integrar os autos da investigação da Procuradoria de Roma sobre o conhecido Boccia-gate.
O contexto é objetivo: foi a equipe do programa Report, da Rai, que exibiu em 8 de dezembro de 2024 o áudio de uma conversa privada envolvendo o então ministro da Cultura Gennaro Sangiuliano e sua esposa — material que, segundo os procuradores, acabou fazendo parte do inquérito. As chats entre o apresentador e a empresária campana, depositadas nos autos pelos magistrados, detalham a gênese daquela relação jornalística que culminou na veiculação do áudio.
Entre os trechos publicados por Il Giornale há passagens que citam uma suposta “lobby gay di destra” que influenciaria a informação. Em particular, descreve-se um episódio no qual Boccia, após acompanhar uma aparição de Tommaso Cerno no programa L’Aria che tira, escreve a Ranucci: “Ho visto Cerno all’Aria che tira… è davvero scandaloso”. A resposta atribuída ao condutor de Report foi: “Quello è un altro del giro… giro gay, pericolosissimo“.
As reações políticas não demoraram. A vice-capogruppo de Fratelli d’Italia na Câmara, Elisabetta Gardini, pediu que “venha fatta piena chiarezza sulle chat tra la Boccia e Sigfrido Ranucci” e defendeu a abertura de uma reflexão séria sobre a relação entre informação, política e proteção da esfera privada. O presidente dos senadores de Forza Italia, Maurizio Gasparri, qualificou a linguagem de Ranucci como discriminatória, sugerindo levar o caso às instâncias que combatem o ódio e ao próprio Ordine dei Giornalisti.
Também houve crítica do senador de Italia Viva, Ivan Scalfarotto, que definiu o uso das expressões “giro gay” e “lobby gay” como “omofobia pura e semplice” e pediu medidas da Rai, lembrando que não é aceitável que um condutor da televisão pública se expresse dessa maneira.
Do outro lado, Sigfrido Ranucci reivindica esclarecimentos e dirigiu questionamentos ao diretor de Il Giornale, Tommaso Cerno, sobre a publicação dos trechos. O episódio levanta um debate concreto: até que ponto a divulgação de conversas privadas é justificável no interesse público e como equilibrar esse direito com a proteção da intimidade? É uma questão que pede uma ponte entre a necessidade de transparência e o respeito às regras que sustentam a arquitetura democrática da imprensa.
Ao acompanhar este caso, o cidadão precisa entender que não se trata apenas de nomes ou trocas de mensagens; trata-se de como as instituições — tribunais, redações e órgãos reguladores — mantêm os alicerces da lei e a confiança pública. O peso da caneta (ou do clique) exige responsabilidade: derrubar barreiras burocráticas que escondem irregularidades é legítimo, mas não pode se transformar em permissividade para discursos que estigmatizem grupos sociais.
O inquérito segue em andamento e as peças do processo, incluindo as conversas, serão avaliadas pelas autoridades competentes. Enquanto isso, o debate sobre ética jornalística, proteção da privacidade e possíveis condutas discriminatórias permanece aberto, pedindo respostas claras para os cidadãos e mecanismos eficazes de supervisão.
















