Em audiência na Comissão de Inquérito Covid, o CEO da Angelini Pharma, Sergio Marullo di Condojanni, confirmou um fato que põe em xeque parte da comunicação sobre o tratamento domiciliar adotado em 2020: a empresa produtora da Tachipirina nunca realizou testes para avaliar a eficácia do princípio ativo, o paracetamol, contra o Sars‑CoV‑2.
O depoimento ocorreu em sequência à discussão sobre a circular do Ministério da Saúde de 30 de novembro de 2020, assinada pelo então ministro Roberto Speranza, que orientava a gestão domiciliar de casos leves e assintomáticos com recomendações como a “vigile attesa“, monitoramento da saturação por oximetria de pulso e tratamentos sintomáticos, citando explicitamente o paracetamol como opção para alívio de sintomas.
Marullo di Condojanni relatou à Comissão que a Angelini não tomou posição pública sobre a diretriz e que a empresa não havia financiado nem encomendado estudos clínicos para testar a Tachipirina contra o vírus. “Nunca fizemos testes contra o vírus”, resumiu o executivo, segundo relato das sessões. Em sua explicação, ele afirmou que a empresa acabou sendo “vítima” de uma falha de comunicação: o medicamento, associado ao nome comercial Tachipirina na mente do público, passou a ser visto como parte do protocolo, mesmo sem envolvimento direto do laboratório.
“A recomendação era sobre o paracetamol, substância genérica; o brand Tachipirina é nosso, mas não fomos nós que promovemos essa associação”, disse o CEO, destacando a ausência de iniciativas de pesquisa patrocinadas pela indústria sobre o efeito do analgésico/antipirético frente ao Sars‑CoV‑2.
O depoimento de Marullo ressoa com outras falhas apontadas pela Comissão: já havia sido observado — em audiências anteriores, como a do infectologista Nicola Petrosillo — o insucesso do protocolo de “tachipirina e vigile attesa” em impedir agravamentos em alguns casos. A sequência de episódios exposta no Parlamento mostra uma arquitetura de decisões públicas e privadas que, por vezes, não se comunicaram com clareza, deixando lacunas na proteção dos cidadãos.
Além do foco no papel da indústria farmacêutica, a audiência integrou um quadro mais amplo de questionamentos da Comissão sobre decisões iniciais da pandemia, que também abordou o embargo às autópsias e a dificuldade de identificar responsáveis por recomendações clínicas adotadas em massa.
Do ponto de vista do cidadão, a revelação do CEO significa que a construção de direitos e de conhecimento científico ficou, em alguns momentos, fragilizada por ruídos institucionais e por uma marca que passou a simbolizar uma prática clínica sem evidência direta proporcionada pelo titular do produto.
Como repórter que acompanha a ponte entre as decisões de Roma e o impacto na vida das pessoas, registro que esta confirmação reforça a necessidade de transparência: quando o peso da caneta define recomendações de saúde pública, é essencial que a arquitetura das provas — estudos, financiamentos e declarações públicas — esteja claramente documentada.
Por Giuseppe Borgo, Espresso Italia



















