O apagamento do reel no Instagram do prof. Alessandro Barbero — em que ele se posicionava sobre o referendo relativo à separação de carreiras na magistratura — reacende uma discussão central sobre censura, algoritmos e o espaço público digital. Como repórter atento à interseção entre as decisões de Roma e a vida cotidiana dos cidadãos, analiso aqui o que esse episódio revela sobre os alicerces da nossa democracia.
As plataformas digitais venderam a sensação de uma praça pública universal: todo mundo pode falar, todo mundo pode ser ouvido. Mas essa praça é uma obra de arquitetura privada, onde os caminhos, cercas e portões são desenhados por quem detém a tecnologia. A liberdade que nos é oferecida pelos social networks é, muitas vezes, uma liberdade condicionada: fale à vontade, desde que o que se diga seja considerado inofensivo pelo sistema.
O caso do professor Barbero — cuja publicação sobre a reforma da magistratura foi oscurada — mostra como os mecanismos de moderação operam como um paternalismo digital. Em nome de uma suposta proteção da verdade ou da ordem pública, algoritmos e equipes de checagem intervêm para limitar a circulação de conteúdos que perturbem a agenda definida por plataformas e atores influentes. É a censura travestida de cuidado.
Há uma hierarquia implícita: especialistas, moderadores e verificadores de fatos ocupam o papel de sentinelas da narrativa pública. A ciência e a tecnocracia passam a validar o que é aceitável. Isso desloca a deliberação democrática da esfera do debate público para a zona de conforto guiada por filtros — uma prisão psicológica em que o indivíduo acredita estar livre porque pode ver e escolher entre opções previamente selecionadas.
Para quem vive as consequências das escolhas políticas — servidor público, advogado, cidadão que depende do funcionamento dos tribunais —, essa dinâmica tem efeitos práticos: quando o debate sobre a separação de carreiras é reduzido, censurado ou morosamente filtrado, a construção de direitos e a compreensão das mudanças propostas perdem transparência. A ponte entre quem decide em Roma e quem convive com as leis no dia a dia enfraquece.
Não se trata de defender discursos irrefletidos nem de relativizar desinformação; trata-se de exigir que a moderação não substitua a deliberação. A democracia precisa de espaços onde argumentos fortes e desconfortáveis possam ser confrontados, não apenas ocultados. Defender a liberdade de expressão é, também, proteger a capacidade dos cidadãos de formar opinião à luz de informações variadas.
Ao derrubar barreiras burocráticas e recuperar a transparência no processo de moderação, ganhamos uma arquitetura de debate mais robusta — uma construção civil da cidadania onde as decisões que saem de órgãos centrais são compreensíveis e rebatíveis. A política não deve ser enjaulada por algoritmos; deve ser discutida, com clareza, nos alicerces da lei e sob os olhos da sociedade.
O episódio do reel apagado é, portanto, mais que um incidente isolado: é um sintoma de como a praça pública digital vem sendo redesenhada. Resta à imprensa, aos atores civis e aos próprios usuários exigir regras que privilegiem transparência, possibilidade de recurso e, sobretudo, o direito à informação. Sem isso, a pluralidade se reduz e a democracia perde parte de sua sustentação.
Giuseppe Borgo — Espresso Italia. Observador atento às curvas entre as decisões de Roma e os efeitos na vida dos cidadãos, imigrantes e ítalo-descendentes.






















