O médico genovês Bassetti entrou em confronto público com a modelo e apresentadora Belen após ela afirmar ter se sentido mal depois da administração da vacina durante a emergência sanitária, além de declarar que muitas outras pessoas teriam passado pela mesma experiência. O episódio reacende uma disputa já vista nos últimos anos, semelhante ao embate entre o virologista Burioni e a artista Heather Parisi, em que se discutiu quem tem legitimidade para falar sobre saúde pública.
De um lado, Bassetti afirmou com veemência que a medicina deve permanecer campo dos médicos, e que personalidades do entretenimento não deveriam interferir em temas técnicos. Do outro, Belen limitou-se a relatar um evento pessoal — ter se sentido mal — e a apontar que relatos semelhantes circulavam entre a população. A tensão entre essas posições toca o cerne da relação entre autoridade científica, relato de pacientes e comunicação pública.
Há aqui dois pontos que merecem ser erguidos como alicerces para a análise pública. Primeiro, se a medicina exige competência técnica e responsabilidade, também é verdade que os profissionais de saúde não ficam imunes ao espetáculo midiático: alguns foram convidados a participar de campanhas públicas, apareceram em transmissões e, em certos momentos, abraçaram papéis de divulgação que se aproximaram do marketing. Criticar celebridades por se pronunciarem é razoável; criticar médicos por se exporem ao palco da opinião pública é, no mínimo, coerente.
Segundo, existe uma distinção clara entre aconselhamento técnico e relato de efeitos observados. Dizer “fiquei mal após a vacina” não é prescrever tratamento, nem usurpar o ofício médico — é a experiência de um paciente. Transformar esse testemunho em tabu significaria fechar a porta à escuta dos cidadãos que compõem as bases da saúde pública. Derrubar essa ponte entre pacientes e ciência seria um retrocesso: a vigilância sobre efeitos adversos vive da participação cidadã.
Há também uma contradição retórica a ser apontada: se em campanhas e programas foi aceitável exibir personalidades enquanto recebiam a vacina, por que hoje é censurável que essas mesmas vozes relatem efeitos? A lógica parece frágil. Talvez valha lembrar aos senhores do púlpito médico que, além da técnica, a boa argumentação exige um pouco de lógica aristotélica.
Em última instância, a disputa entre Bassetti e Belen revela uma batalha simbólica sobre quem define o discurso público em saúde. A resposta não é simples: precisamos tanto da autoridade informada dos especialistas quanto da escuta atenta das experiências individuais — sem transformar relatos de sofrimento em silêncios obrigatórios, nem substituir conhecimento por opinião desinformada.
Como repórter que acompanha a arquitetura das decisões públicas, digo que a lição a tirar é prática: construir pontes, não muralhas, entre ciência e sociedade. O peso da caneta, no jornalismo, é o de trazer à tona essas tensões para que se transformem em políticas mais transparentes e em direitos bem assentados.






















