O processo envolvendo o histórico centro social Askatasuna terá início em 13 de abril na Corte de Apelação de Torino. Trata-se do maxi-julgamento no qual um grupo de militantes do centro é acusado de associação criminosa. Em primeira instância, todos haviam sido absolvidos desse mesmo crime, embora existam condenações isoladas por episódios vinculados a ações, por exemplo, contra as obras do TAV no Vale de Susa.
O documento que comunicou a data da audiência foi assinado em 2 de fevereiro — dois dias após os confrontos que marcaram a manifestação Pro Askatasuna no centro piemontês. Aquela noite teve a dimensão de uma guerrilha urbana: homens encapuzados, com roupas escuras, capacetes e passam-montanhas atacaram repetidas vezes os contingentes das forças da ordem, lançando pedras, garrafas de vidro, rojões e bombas de efeito sonoro; ergueram barricadas com contentores incendiados e chegaram a atear fogo a uma caminhoneta da polícia.
Os responsáveis, estimados em cerca de 1.500 pessoas segundo relatos das autoridades, atuaram em blocos organizados. Entre eles estavam anarquistas, autonomos, grupos antagonistas e elementos considerados “cães soltos”, vindos não apenas de várias cidades italianas, mas também de outros países europeus — com destaque para a França. Investigadores descrevem táticas já conhecidas: uso de nomes-código como Blu, Ugo, Kiwi e Mango para coordenar pequenos núcleos; mudança rápida de roupa dentro do cortejo — sobretudo por jaquetas e calças impermeáveis pretas — e abandono das vestes no asfalto para dificultar a identificação.
Durante os distúrbios foram empregados também dispositivos improvisados: ponteiros laser para incomodar os agentes, tubos de lançamento artesanais e hastes de placas de sinalização. Em uma das fases de “travestimento”, alguns agressores atacaram uma jornalista e sua equipe, destruindo equipamentos de reportagem.
Até o momento, são três os detidos por participação nas violências e 24 os denunciados, entre eles alguns estrangeiros. Um dos presos é apontado como um dos autores da agressão ao agente Alessandro Calista, do Reparto Mobile de Pádua: trata-se de um jovem de 22 anos da província de Grosseto, com antecedentes leves. As investigações preliminares sugerem que ele não pertença a uma estrutura definida, sendo tratado pelos inquirentes como um elemento isolado — um “cão solto”.
As apurações prosseguem para identificar outros responsáveis pelos atos de violência. A atenção das forças foi elevada já nos dias anteriores: cerca de 770 pessoas foram identificadas em controles preventivos nas principais vias rodoviárias e ferroviárias de acesso à cidade.
No plano político, a questão volta a colocar sob tensão os alicerces da lei e o debate sobre segurança: a primeira‑ministra Giorgia Meloni auspicia uma resolução unitária em torno do decreto Sicurezza. A chamada para consenso da chefia do Executivo indica a tentativa de construir uma ponte legislativa que contenha o impacto das manifestações violentas sem, entretanto, erodir garantias civis — um equilíbrio que exige avaliação criteriosa.
Como repórter que observa a interface entre decisão de Roma e vida cotidiana, registro que episódios como o de Torino funcionam como teste para os mecanismos institucionais: a responsabilidade do Estado é proteger a ordem pública; a responsabilidade da sociedade é não permitir que o debate democrático seja sequestrado pela violência. A construção de direitos e a segurança pública dependem, ao final, de medidas que sejam eficazes e proporcionais — os próximos passos do processo Askatasuna e as respostas políticas formarão os próximos alicerces desta arquitetura.






















