Por Giuseppe Borgo, Espresso Italia. A poucos dias do início do Festival di Sanremo, a escolha de Andrea Pucci como co-condutor da terceira noite reacende um debate que ultrapassa o palco musical e entra nos alicerces da comunicação pública. Em um vídeo publicado no Instagram, Pucci aparece nu, em pé no ponte de um navio, dizendo “Sanremo… Sto arrivando” — uma saudação que foi usada por Carlo Conti para anunciar sua participação no Ariston. O post, porém, desencadeou críticas imediatas de parlamentares do PD.
Os membros democratas da Comissão de Vigilância cobraram explicações da Rai: “Também Sanremo, como toda a Rai, se tornou TeleMeloni? Os dirigentes da emissora devem explicar a escolha do comediante Pucci, claramente de direita, fascista e homofóbico, já presente nas cronicas por ter ridicularizado um rapaz do espetáculo por ser homossexual”, afirmam em nota. No tom institucional, exigem que a emissora justifique por que um rosto marcado por controvérsias ocupa espaço privilegiado no principal evento cultural da televisão pública.
As acusações apontam para um padrão: piadas antigas do comediante que, segundo críticos, excedem o “politicamente incorreto” e transitam para a ofensa. Entre os episódios lembrados está a publicação em que Pucci comparou a secretária do Partido Democrático, Elly Schlein, a personagens como Alvaro Vitali e Pippo Franco. Ao ser questionado, Pucci respondeu que reiteraria a brincadeira, justificando: “não me contive porque ela não me simpatiza e a hipocrisia de certa esquerda eu não suporto”.
No front das redes sociais, a jornalista e blogueira Selvaggia Lucarelli tornou-se uma das vozes mais incisivas contra a presença de Pucci em Sanremo. “Parabéns a Carlo Conti, depois daquele que não canta ‘Bella ciao’ e do stalker canoro amigo de Giorgia, no palco de Sanremo temos também Andrea Pucci, que faz body shaming em Elly Schlein, piadas homofóbicas e outras grosserias. É um belo presidente!”, escreveu ela, ampliando a pressão pública sobre a direção do festival.
Não é a primeira vez que Pucci se vê no centro de polêmica política. Menos de três anos atrás houve o episódio do Ambrogino d’Oro, proposto pela Lega no final de 2023; diante das críticas, o comediante respondeu: “há 30 anos eu dou leveza aos milaneses”. A controvérsia tende a ressurgir, desta vez no cenário nacional, diante da visibilidade de Sanremo e da obrigação de neutralidade esperada de um serviço público de radiodifusão.
Do ponto de vista cívico, a questão coloca-se como teste sobre os alicerces da lei e da responsabilidade editorial: até que ponto a liberdade artística e a comicidade justificam o espaço num palco sustentado por recursos públicos? A oposição do PD chama atenção para o risco de normalizar discursos que marginalizam grupos — uma erosão gradual que se constrói peça a peça se as instituições não exercerem o papel de guarda da pluralidade.
Em seu posicionamento público, Pucci tratou o assunto com a mesma linha: na sua perspectiva, “na comédia o politically correct foi posto de lado”. Já a Rai e o governo ainda não divulgaram uma resposta formal à convocação da Comissão de Vigilância. A cena revela, mais uma vez, o peso da caneta e da decisão institucional: escolhas de elenco em eventos de massa têm reflexo direto na vida cívica e na percepção pública sobre quem tem voz nos espaços coletivos.
Como repórter e observador das conexões entre Roma e a vida dos cidadãos, seguirei acompanhando os desdobramentos. A arquitetura do debate público sobre Sanremo está em construção — e a próxima noite no Ariston pode se transformar em uma ponte ou em uma trincheira, dependendo das respostas que emergirem dos palcos institucionais.





















