Air Force Renzi: o avião de Estado que saiu caro e voou pouco
Por Giuseppe Borgo — Espresso Italia
O avião que ficou conhecido como Air Force Renzi, o Airbus A340-500 destinado a voos intercontinentais de chefes de Estado, foi alienado em 2023 por um valor simbólico de 1 euro. A operação, porém, deixou números que pesam como alicerces mal colocados na conta pública: entre aquisição, utilização, manutenção e gestão, o aparelho gerou um custo total estimado em €168 milhões para o Estado ao longo de oito anos, sendo efetivamente empregado em apenas 29 voos institucionais.
Essa sequência de fatos — compra, sublocação, baixo uso e alienação simbólica — compõe uma das peças mais visíveis da arquitetura problemática entre decisões políticas e gestão patrimonial pública. A história começa em 2015, quando o governo liderado por Matteo Renzi decidiu dotar-se de uma aeronave de longo alcance. O aparelho foi adquirido por cerca de $58 milhões e, em seguida, operado por meio de um contrato em que a Alitalia Sai (com participação da Etihad) recebeu a aeronave em leasing e a subnolejou ao Estado.
O uso efetivo do avião foi escasso. Desmobilizado já em 2018 e definitivamente cedido em 2023 à companhia Etihad pelo simbólico montante de 1 euro, o equipamento acabou transformado em um ativo improdutivo. Apesar do preço de saída simbólico, os cofres públicos arcavam com despesas correntes: manutenção, estacionamento, equipe técnica, seguros e demais encargos operacionais que, somados aos custos de aquisição e contratos correlatos, totalizaram os mencionados €168 milhões.
Resta, contudo, a dúvida sobre o impacto econômico exato dessa operação. Uma perícia técnica juntada ao procedimento conduzido pela Procura de Civitavecchia — e assinada pelo perito Martinazzo — aponta que a soma desembolsada pelo Estado para a aquisição e operação do avião excederia entre cerca de €40 milhões o que seria o preço plausível de mercado na época, estimado entre €15 e €30 milhões para uma aeronave similar. O documento pericial, de 117 páginas com aproximadamente 1.900 anexos, traça a cronologia e os termos contratuais que conduziram à alienação.
No plano penal, o procedimento foi arquivado: a Procura não identificou elementos suficientes para caracterizar uma fraude contra o Estado. Ainda assim, o possível dano erariale permanece um ponto aberto para a Corte dei Conti, que recebeu todo o material técnico e deverá avaliar se houve prejuízo patrimonial e responsabilidades administrativas. Ao mesmo tempo, paira a questão política: o peso da decisão tomada há uma década e o custo para a coletividade mostram como o gesto de uma assinatura pode alterar alicerces orçamentários.
Há também episódios de adiantamentos e condições contratuais que provocaram inquietações no relatório pericial: relatos de adiantamentos significativos no momento da assinatura do contrato — na casa dos milhões de dólares — e termos que, segundo especialistas consultados, poderiam ter exposto o Estado a custos evitáveis. A janela temporal entre compra, uso mínimo e alienação apressa a pergunta que fica na praça pública: como construir uma ponte entre necessidades institucionais e prudência financeira sem derrubar o teto do interesse público?
Do ponto de vista institucional, o caso é uma lição sobre a necessidade de reforçar controles na aquisição e gestão de bens pesados para a presença internacional do país. A lição prática serve para quem atua na gestão pública e para a cidadania: derrubar barreiras burocráticas deve caminhar lado a lado com a construção de mecanismos de responsabilização e transparência.
Enquanto isso, o Air Force Renzi permanece um exemplo concreto do custo que decisões de prestígio podem impor ao erário quando falta planejamento de longo prazo. A narrativa expõe a responsabilidade de quem segura o peso da caneta e lembra que, na arquitetura do Estado, cada escolha altera as fundações da confiança pública.






















