Por Giuseppe Borgo — Um apelo raro e contundente chega do topo da pirâmide social: quase 400 milionários e bilionários de 24 países assinaram a carta aberta “Time To Win” exigindo tassas aos super-ricos e medidas para conter a concentração de riqueza. O documento acompanha uma pesquisa encomendada por organizações de investidores cidadãs e divulgada durante o encontro anual do World Economic Forum.
A sondagem, realizada pela Survation, ouviu 3.900 milionários em países do G20 e revela uma inquietação incomum entre os muito ricos: 77% dos entrevistados acreditam que os super-ricos exercem influência política excessiva; 71% afirmam que a riqueza extrema pode ser usada para condicionar eleições. Esses números traduzem uma preocupação de que o peso da fortuna esteja corroendo os alicerces da lei e a confiança pública.
Assinam a carta figuras conhecidas como Mark Ruffalo, Brian Cox, Brian Eno e Abigail Disney — e organizações como Patriotic Millionaires International e Oxfam Millionaires for Humanity articulam o movimento. A mensagem é direta: é hora de reconstruir pontes entre riqueza e bem-estar público, e a primeira etapa passa por políticas fiscais que recuperem recursos para serviços públicos e proteção social.
Os dados que acompanham o apelo pintam um quadro alarmante. Segundo a Oxfam, o patrimônio agregado do 1% mais rico atualmente corresponde a três vezes a riqueza pública mundial. Em 1975, a diferença entre riqueza privada e pública era de cerca de US$ 36 trilhões; em 2024, saltou para US$ 435 trilhões. Se a tendência persistir, a projeção aponta que, até 2075, a riqueza privada poderá superar em quase US$ 900 trilhões a riqueza pública.
Nesse contexto, a presidência de Donald Trump é citada no levantamento como uma expressão extrema de captura oligárquica do poder. Para os signatários e para a maioria dos milionários consultados, a combinação entre concentração de riqueza e influência política fragiliza a democracia global e aumenta o risco de instabilidade econômica.
O levantamento traz outras estatísticas significativas: 82% defenderam a imposição de limites às doações individuais a partidos e políticos; 62% apontaram a riqueza extrema como uma ameaça à democracia; seis em cada dez afirmaram que a concentração de recursos impede que pessoas comuns vivam com dignidade e prejudica a confiança social. Ainda, 69% acreditam que a influência dos poderosos sobre políticos bloqueia ações eficazes contra as desigualdades.
Sobre as medidas concretas, 65% dos milionários pesquisados apoiam a elevação de impostos sobre os mais ricos para financiar serviços públicos e enfrentar a crise do custo de vida; apenas 17% se opuseram a essa agenda fiscal. É uma maioria entre os privilegiados que reconhece que a construção de um pacto fiscal mais justo pode ser necessária para restaurar sustentabilidade e coesão social.
Mark Ruffalo resumiu o diagnóstico com clareza: o problema não é só um presidente ou um episódio político, mas uma arquitetura de desigualdade que criou condições para deriva autoritária. Como repórter que observa a interseção entre decisões de Roma, de Washington e a vida cotidiana, vejo nesse apelo um gesto de alerta — uma tentativa de colocar o peso da caneta e da responsabilidade na direção de políticas que reflitam o interesse público.
O debate que se abre exige decisões políticas firmes: limitar o fluxo de dinheiro para a política, taxar fortunas e fortalecer serviços públicos são medidas que podem erguer novos alicerces para a democracia. Se não agirmos, a concentração de riqueza continuará a construir barreiras burocráticas que separam uma elite do resto da sociedade — e essa divisão é, em última instância, um risco para a estabilidade econômica global e para a vida digna de milhões.






















