Por Marco Severini
Em um movimento que redesenha, em linhas largas, o equilíbrio de segurança global, a Rússia anunciou estar preparada para enfrentar um “novo mundo” sem limites formais ao controle das armas nucleares. A declaração foi feita pelo vice‑ministro das Relações Exteriores, Sergei Ryabkov, durante visita oficial à China, e surge no limiar da expiração do tratado New START.
O acordo, assinado em 2010, havia imposto um teto de 1.550 ogivas estratégicas desdobradas para cada parte. Se não houver um acordo de última hora — possibilidade que, até o momento, continua remota —, esta semana o tratado expirará e, pela primeira vez em mais de meio século, não existirão restrições bilaterais formais sobre os arsenais nucleares estratégicos de longo alcance.
Segundo Ryabkov, “este é um novo momento, uma nova realidade — estamos prontos para enfrentá‑la”. A afirmação reflete uma mudança de fase na tectônica de poder entre Moscou e Washington: o conjunto de salvaguardas e limites negociados desde a crise dos mísseis de Cuba vem sendo progressivamente corroído pelo agravamento do confronto, pela crise ucraniana e pelas crescentes preocupações americanas com o papel estratégico da China.
Fontes russas recordam que, no mês passado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, indicou ao New York Times que deixaria o tratado expirar. Moscou propôs, em seguida, uma extensão técnica de um ano das disposições sobre mísseis e ogivas, para ganhar tempo e avaliar passos futuros; a Casa Branca, segundo Ryabkov, não emitiu resposta formal. “A ausência de resposta é também uma resposta”, declarou o vice‑chanceler.
Especialistas de ambos os lados alertam que o fim do New START não apenas elimina limites numéricos, mas corrói os mecanismos de confiança e verificação que permitem reconhecer intenções e reduzir riscos de escalada. Há temor de que a anulação do arcabouço de controle de armas funcione como catalisador de uma nova corrida armamentista, com seus custos estratégicos e humanos.
O fluxo de acordos – construído em resposta ao risco existencial exposto nos anos 1960 – parece hoje fragmentado. Figuras da administração americana, incluindo o ex‑presidente Barack Obama, que assinou o New START em 2010 com o então presidente russo Dmitry Medvedev, apelaram ao Congresso dos EUA para intervir e preservar o tratado. “Se o Congresso não agir, o último tratado de controle entre Estados Unidos e Rússia expirará”, escreveu Obama, advertindo sobre o retorno a uma dinâmica perigosa que tornaria o mundo menos seguro.
Além do debate sobre limites e verificações, Moscou advertiu sobre contramedidas caso Washington avance com a instalação de sistemas de defesa antimísseis em territórios da OTAN, citando especificamente a possibilidade de sistemas na Groenlândia, parte autônoma do Reino da Dinamarca. Ryabkov afirmou que tal movimentação obrigaria a Rússia a adotar medidas militares correspondentes — um tipo de resposta reativa já bem conhecido nas partidas diplomáticas de alto risco.
Do ponto de vista estratégico, assistimos a um movimento decisivo no tabuleiro: a perda de um pilar técnico‑diplomático que sustentava a previsibilidade entre duas potências nucleares cria alicerces frágeis para a estabilidade futura. As peças agora se movem com menos restrições; cabe à diplomacia, com paciência e cálculo, reconstruir canais de verificação e reduzir a probabilidade de erro.
Enquanto o relógio avança, governos, parlamentos e sociedades civis enfrentam uma escolha que não é apenas tecnológica, mas profundamente política: permitir que o sistema de limites se desfaça em nome de interesses imediatos, ou empenhar‑se em salvaguardar mecanismos que, embora imperfeitos, reduziram durante décadas o risco de catástrofe.
Marco Severini é analista sênior de geopolítica e estratégia internacional da Espresso Italia.






















