Às vésperas do congresso da CDU em Stuttgart, o chanceler alemão Friedrich Merz escolheu um palco pouco convencional — o podcast político Machtwechsel — para traçar, com clareza calculada, o reposicionamento da Alemanha perante a Europa e os Estados Unidos. Não se tratou de um discurso retórico, mas de movimentos estratégicos que abrem um novo capítulo na tectônica de poder continental.
As declarações de Merz sobre defesa e política industrial marcam, na prática, uma ruptura: pela primeira vez desde a reunificação, um chanceler alemão questiona publicamente a vigência de um dos maiores programas industriais e estratégicos europeus — o FCAS (Future Combat Air System) — e, ao mesmo tempo, deixa portas abertas a hipóteses que até há pouco eram politicamente intocáveis.
O impasse do FCAS e a fissura no eixo franco-alemão
No cerne do anúncio está o diagnóstico sobre o FCAS. Segundo Merz, o projeto padece de um dissenso fundamental: a França pretende um avião com capacidade nuclear e operação a partir de porta-aviões — requisitos para os quais a Alemanha não enxerga necessidade operacional. Essa divergência transforma o programa num campo de disputa político-industrial, não apenas técnico.
A consequência implícita é de grande alcance estratégico: abre-se a possibilidade de Berlim mirar, em formas e cronogramas hoje imprevisíveis, projetos concorrentes capitaneados por Reino Unido, Itália e Japão. Para a arquitetura europeia de defesa, trata-se de um possível redesenho de fronteiras invisíveis, porque o FCAS era mais do que um consórcio industrial — era pilar simbólico da cooperação franco-alemã.
Nuclear: não a um arsenal alemão, sim a um dissuasor europeu
No tema mais sensível, o nuclear, Merz foi categórico: a Alemanha não buscará um arsenal nacional — uma hipótese politicamente inviável e proibida por tratados como o 2+4. Ainda assim, introduziu uma novidade estratégica: não se pode descartar uma participação alemã num dissuador europeu, numa arquitetura de proteção coletiva, possivelmente sob um guarda-chuva francês.
É um ponto histórico. Formalmente, a Alemanha permanece no quadro da NATO e do nuclear sharing, mas passa a considerar cenários europeus até então tabus — um movimento que altera os alicerces frágeis da diplomacia no continente.
Uma estratégia coerente rumo à liderança
As observações no podcast não são episódios isolados. Inserem-se numa estratégia construída por Merz ao longo dos últimos meses, cujo objetivo declarado é transformar a Bundeswehr no “exército convencional mais forte da Europa” e posicionar a Alemanha como país-guia do novo ordenamento europeu, embora “em parceria com aliados”.
Na linguagem do tabuleiro, trata-se de um movimento para ganhar espaço de manobra: mais autonomia militar para negociar regras, contratos e programas tecnológicos com maior liberdade. É um xeque posicional que visa criar vantagem estratégica antes mesmo de uma confrontação explícita com parceiros como França ou aliados atlânticos.
Implicações e cenários
As consequências são práticas e simbólicas. No plano industrial, uma eventual saída ou revisão do FCAS poderia reorientar cadeias de fornecimento e investimentos bilaterais. No plano político, corrói um dos símbolos mais visíveis da cooperação franco-alemã após a Segunda Guerra. No campo da dissuasão, a discussão sobre um dissuador europeu reacende debates sobre soberania estratégica e arquitetura de segurança do continente.
Como analista, observo que Merz move agora peças no tabuleiro com uma mistura de audácia e contenção: audácia ao desafiar consensos; contenção ao rejeitar a arma nacional. É um redesenho calculado do papel alemão na Europa, que exigirá respostas diplomáticas cuidadosas e possivelmente um novo equilíbrio entre parceiros. O tempo e as negociações técnicas dirão se este será um simples ajuste de posição ou um movimento decisivo cujo efeito ressoará nos próximos anos.






















