Por Marco Severini — Em um movimento que expõe a fricção entre liderança e domínio no palco internacional, a União Europeia reagiu com alívio contido ao recuo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre as ameaças de impor dazi a países europeus que enviaram militares à Groenlândia. O episódio, entretanto, redesenha linhas de tensão e reafirma que, no tabuleiro da geopolítica, a estabilidade exige respeito mútuo e equilíbrio de poder.
Convocado pelo primeiro‑ministro de Portugal, António Costa, um encontro extraordinário de líderes europeus em Bruxelas procurou transformar o alerta em oportunidade de disciplina estratégica. Como já salientou Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, a UE deve permanecer unida — não por retórica, mas porque essa é a condição que, historicamente, permite ao bloco exercer influência sem ser subjugado por decisões alheias.
O presidente americano, após declarações severas em Davos — que chegaram a sugerir uso da força para a anexação e a ameaça de tarifas punitivas — em seguida retrocedeu, afirmando que não promoveria a anexação da ilha nem imporia os dazi anunciados. Parte dessa desescalada foi atribuída ao papel do primeiro‑ministro holandês, Mark Rutte, cuja interlocução com Washington ajudou a evitar uma ruptura aberta entre aliados.
Apesar do alívio coletivo — expresso pela líder estoniana Kaja Kallas e pelo presidente francês Emmanuel Macron, que advertiu para a necessidade de vigilância — a reunião manteve tom firme: relações transatlânticas são valiosas, mas não podem ser coniventes com humilhações ou chantagens.
O político belga Bart De Wever colocou a questão de forma lapidar: há diferença entre ser um vassalo satisfeito e um escravo infeliz. Essa distinção, em plena praça pública diplomática, traduz a preocupação central da UE: preservar dignidade e autonomia estratégica sem romper um eixo transatlântico que continua fundamental para a segurança europeia.
Nos bastidores, Bruxelas referendou que mantém em prontidão as medidas de resposta econômica que vinha calibrando — o chamado instrumento anti‑coerção, apelidado de bazuca. Ainda que a sua ativação exija tempo e coordenação, a simples existência dessa ferramenta funciona como dissuasor: um alicerce para a diplomacia, capaz de transformar ameaças isoladas em custos políticos e económicos palpáveis.
O episódio da Groenlândia revela, em termos estratégicos, uma tectônica de poder em mutação: a liderança americana continua natural para muitos europeus, mas não é sinônimo de hegemonia indiscutível. Em vez de reagir apenas a cada investida externa, a União Europeia trabalha agora para consolidar mecanismos institucionais que permitam responder com coerência, preservando assim suas opções de política externa e sua dignidade coletiva.
Conclui‑se que a crise evitada não elimina o problema estrutural — apenas o adia. A diplomacia europeia, neste momento, assume o papel de jogador que reforça suas defesas antes de desferir qualquer movimento decisivo no tabuleiro: prudente, firme e consciente dos riscos de subestimar a imprevisibilidade externa.






















