Traficantes transnacionais, homicídios, extorsões, agiotagem e esquemas de corrupção: esse é o perfil da mocro‑mafia, a organização criminosa que, segundo especialistas, ampliou seu raio de ação até se tornar uma ameaça sistêmica para a Europa e a União Europeia.
Em entrevista concedida a esta redação, o professor Vincenzo Musacchio descreve a evolução do grupo: nascido em contextos de comunidades marginalizadas e em estruturas criminais transnacionais, a mocro‑mafia consolidou-se progressivamente como ator central nas cadeias do narcotráfico internacional. Seu fortalecimento está diretamente ligado ao controle logístico sobre pontos estratégicos — acima de tudo o Porto de Rotterdam, um dos maiores hubs comerciais da Europa. O domínio ou a influência sobre terminais portuários e corredores marítimos confere à organização poder decisivo no fluxo de cocaína para os mercados do oeste europeu.
O professor Musacchio sinaliza que a combinação de recursos financeiros, redes criminalmente enraizadas e capacidades militares — entendidas aqui como acesso a armamento e meios rápidos para gerir rotas e conflitos — transforma a mocro‑mafia numa estrutura capaz de criar zonas de sombra em que o Estado tem dificuldades de impor controle total. Esse padrão já tem efeitos visíveis em países como Países Baixos, Bélgica, França, Alemanha, Espanha e, de forma indireta, na Itália.
Segundo o especialista, a expansão do grupo é alimentada por dois vetores claros: a demanda crescente por drogas, especialmente cocaína e substâncias sintéticas, e a subestimação inicial do fenômeno por parte das autoridades. “Por tempo demais, redes de cannabis e drogas sintéticas foram interpretadas como problemas de microcriminalidade local”, afirma Musacchio, que participou de audiências no Parlamento Europeu e em instâncias nacionais sobre o tema. Essa leitura equivocada permitiu que a estrutura se profissionalizasse, acumulasse capital e monopolisasse rotas de entrada e distribuição.
As consequências práticas são objetivas: intensificação da violência entre gangues, infiltração em setores econômicos legais e aumento das práticas corruptas em pontos nevrálgicos, como portos e centros logísticos. O controle sobre infraestrutura facilita o branqueamento de capitais e a apropriação de parcelas da economia formal, ampliando o alcance político e social do crime organizado.
Musacchio alerta ainda para a sofisticação das redes, que operam com logística moderna, divisão de tarefas e vínculos transfronteiriços capazes de contornar sistemas de fiscalização tradicionais. A resposta exigida, na sua avaliação, passa por ações coordenadas entre Estados-membros, reforço de mecanismos de fiscalização portuária, troca de inteligência e um reposicionamento estratégico das agências de investigação para tratar o fenômeno como organização complexa, e não apenas como crime local.
O diagnóstico é claro e operacional: enfrentar a mocro‑mafia requer combinar apuração técnica, cruzamento de fontes e intervenção focalizada em pontos logísticos críticos. Sem essa mudança de paradigma, a tendência é que as mesmas dinâmicas se espalhem e aprofundem a capacidade da organização de infiltrar-se na economia formal e nas instituições.
Fonte: Entrevista com o Prof. Vincenzo Musacchio; apuração e tradução por Giulliano Martini.































