Por Giulliano Martini — A análise do criminólogo Vincenzo Musacchio revela um quadro de crescente complexidade: a Turquia configurou-se como um nó estratégico no Mediterrâneo para diversos tráficos ilegais que apontam para a Europa. O fenômeno combina o uso de portos e rotas comerciais legais, práticas de corrupção, mecanismos de lavagem de dinheiro e infiltração direta na economia formal.
Cenário e vetores dos crimes
Segundo Musacchio, as mafias turcas ampliaram sua capacidade de atuação graças à interdependência logística entre Turquia, Europa, Oriente Médio e Ásia. Os grupos oferecem serviços de segurança e logística, se inserem nas cadeias de suprimento e usufruem de lacunas normativas para movimentar capital ilícito. O resultado é a distorção da concorrência: empresas honestas perdem espaço e a confiança dos investidores migra para redes criminosas que conseguem operar com custos e riscos artificialmente reduzidos.
As principais modalidades de crime identificadas são: narcotráfico, tráfico de armas, contrabando de petróleo, tráfico de pessoas e fraudes comerciais. Esses fluxos costumam passar por portos e aeroportos estratégicos, com destaque para escalas em cidades como Mersin e İzmir, cuja expansão logística — impulsionada por investimentos públicos e privados — aumentou capacidade e conectividade, mas também a vulnerabilidade quando faltam controles eficazes.
O papel da corrupção e da governança
O relato do especialista enfatiza que atores políticos ou funcionários corruptos podem facilitar operações criminosas ao conceder autorizações, obstruir investigações ou interferir na gestão portuária. Essa collusão cria zonas cinzentas na governança e permite que organizações criminosas se insiram na economia formal, tanto em nível operacional quanto financeiro. Em alguns casos, o fluxo humano irregular chega a gerar crises em Estados-membros da União Europeia, elevando o problema a uma dimensão transnacional.
Riscos para o Mediterrâneo e a Europa
Do ponto de vista da segurança, a proliferação dessas rotas e serviços ilegais representa um risco concreto ao controle de fronteiras e à estabilidade regional. A utilização de empresas de transporte, operadores portuários e redes financeiras como fachada aumenta a complexidade das investigações e amplia a capacidade de persistência dos grupos criminosos diante de ações pontuais das autoridades.
Medidas recomendadas
Para enfrentar o problema, Musacchio e a apuração in loco apontam medidas práticas e coordenadas: fortalecimento da cooperação internacional, adoção de controles alfandegários e fiscalizações direcionadas, investigações patrimoniais para cortar fontes de lavagem de dinheiro, e investimento em tecnologias anti-contrabando (rastreamento de cargas, análise forense de cadeias logísticas, inteligência financeira). Além disso, é crucial maior transparência na gestão portuária e mecanismos de proteção a investigadores para mitigar interferências políticas.
O diagnóstico é claro: sem ação coordenada entre Estados e órgãos multilaterais, a Turquia continuará a operar como um corredor amplificado para atividades criminosas que afetam não apenas sua economia, mas a segurança do Mediterrâneo e de países europeus.
Fatos brutos: portos como Mersin e İzmir ampliaram sua capacidade logística; a presença de lacunas regulatórias permite lavagem de dinheiro e infiltração empresarial; a corrupção pode viabilizar autorizações ou proteção a redes criminosas.
Apuração baseada em entrevistas com especialistas em segurança e no estudo do criminólogo Vincenzo Musacchio. A realidade traduzida aqui prioriza evidência e cruzamento de fontes, sem conjecturas.
Giulliano Martini — correspondência da Espresso Italia, com 48 anos de vivência na Itália e formação em Ciências Políticas.






















