Por Marco Severini — A recente investigação do BBC Verify revela um movimento estratégico e inquietante no mar da política internacional: dezenas de petroleiras russas sancionadas conseguiram atravessar o Canal da Mancha neste mês, apesar das garantias públicas de Londres sobre a adoção de “ações decisivas”. O episódio expõe não apenas lacunas operacionais, mas também falhas nos alicerces jurídicos e de inteligência necessários para conter a chamada frota sombra russa.
Desde a escalada do conflito na Ucrânia, a Rússia recorreu a uma logística marítima paralela — a frota sombra — para mascarar destinos, transferir cargas e contornar sanções sobre suas exportações de petróleo. Segundo a BBC, o governo britânico teve assegurada, no início do mês, a base legal para apreender embarcações envolvidas em violações. Mesmo assim, foram contabilizadas 42 embarcações sancionadas que cruzaram o Canal da Mancha, uma rota que permanece sensível para a segurança energética e naval europeia.
Um caso emblemático é o do navio Sofos, listado entre as embarcações sancionadas pelo Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido em maio de 2025. Os registros de localização indicam uma trajetória complexa: carregamento de combustível na Rússia em meados de novembro, escala na Turquia, deslocamento até a Venezuela — onde o sinal AIS foi desligado — e posterior presença documentada por imagens de satélite no terminal petrolífero de José, nos dias 22 e 23 de dezembro. O transponder reapareceu somente em 26 de dezembro, já fora das águas territoriais venezuelanas, e o navio foi localizado depois nas proximidades de São Petersburgo.
Do ponto de vista estratégico, este episódio demonstra a habilidade de atores estatais e proxies em explorar espaços cinzentos: apagar sinais, multiplicar bandeiras, e criar cadeias logísticas difusas que testam a capacidade de reação das democracias. No tabuleiro geopolítico, trata-se de um movimento que redesenha, silenciosamente, linhas de influência e vulnerabilidade — uma verdadeira tectônica de poder no oceano.
As implicações são múltiplas. Em Londres, a narrativa de eficácia contra as violações enfrenta o teste da praxis: ter a base legal para apreensão não equivale automaticamente à capacidade de execução em alto-mar, onde regras de jurisdição, tempo de reação e coordenação internacional fazem a diferença. Para os aliados europeus, a travessia pelo Canal da Mancha sinaliza a necessidade de uma arquitetura cooperativa mais robusta — inteligência marítima partilhada, vigilância por satélite consolidada e procedimentos legais harmonizados para apreensão e inspeção.
Diplomaticamente, é prudente não reduzir o problema a um embate binário. A resposta eficaz requer paciência de estadista: construir coalizões legais, aperfeiçoar a cadeia de prova (rastreio AIS, imagens por satélite, acompanhamento de contratos e proprietários), e desencadear medidas que cerquem, sem provocar rupturas desnecessárias, o fluxo de receitas que financiam estratégias revisionistas.
Em resumo, a travessia das 42 petroleiras sancionadas pelo Canal da Mancha é um alerta para a fragilidade dos mecanismos atuais. A diplomacia, como num jogo de xadrez, exige antecipação e movimentos coordenados para fechar as rotas de evasão, fortalecendo os alicerces da ordem internacional e preservando a estabilidade do sistema energético e político europeu.





















