Enquanto profissionais italianos e europeus mostram preferência por estabilidade, as empresas aceleram a adoção de inteligência artificial para mapear competências que permanecem ocultas aos métodos tradicionais. Uma investigação do LinkedIn desenha um novo equilíbrio entre oferta e procura, com implicações concretas para a arquitetura do mercado de trabalho.
Os dados do LinkedIn indicam um aumento próximo de 50% no número de candidatos por vaga desde 2022. Esse acréscimo coincide com um paradoxo prático: embora 43% dos profissionais declarem intenção de trocar de emprego, a maioria adere ao fenômeno conhecido como “job hugging” — a tendência de manter o posto atual por receio de um ambiente de trabalho percebido como instável ou excessivamente seletivo.
O desafio não é exclusivo dos candidatos. Mais da metade dos responsáveis por seleção (52%) relata maior dificuldade em identificar talentos qualificados no último ano. Pressões para preencher vagas rapidamente (37%) e a necessidade de gerir bases de candidatos cada vez mais amplas levaram 63% dos recrutadores a se considerarem despreparados diante das exigências organizacionais crescentes.
Se 2025 foi o ano das experiências pontuais, 2026 marca a integração estrutural da IA nos processos de contratação. Nove em cada dez recrutadores planejam aumentar o uso de tecnologias inteligentes não apenas para reduzir tempos, mas para aprimorar a qualidade da seleção. Oito dos dez profissionais do setor ressaltam que a inteligência artificial ajuda a encontrar competências “escondidas” — traços e potenciais que triagens tradicionais não captariam.
Moreno Ferrario, Head of Enterprise do LinkedIn Itália, sintetiza: “A adoção é transversal; não há um setor dominante. O diferencial é a cultura interna, a visão e a liderança”. Essa observação aponta para a infraestrutura cultural que determina se a tecnologia será apenas ferramenta ou alicerce transformador.
Os efeitos das tecnologias agentic já são mensuráveis: ferramentas como Hiring Assistant permitiram aos primeiros utilizadores economizar mais de 4 horas por vaga, reduzindo em 62% a triagem de perfis desalinhados. Paralelamente, o LinkedIn Hiring Pro, voltado a pequenas empresas, permite que 60% dos recrutadores identifiquem um candidato apto à entrevista já na primeira semana de busca.
As evoluções previstas incluem: entrevistas pré-seletivas com suporte de IA para filtrar etapas iniciais; interfaces conversacionais que refinam critérios em tempo real; e InMails personalizadas geradas por IA para aumentar taxas de resposta. Importante frisar: o objetivo não é substituir o fator humano, mas ampliá-lo. Cerca de 63% dos recrutadores afirmam usar eficiência algorítmica para recuperar tempo que será investido em interações humanas mais profundas e significativas.
Do ponto de vista sistêmico, essa transição parece menos um salto tecnológico espetacular e mais uma reconfiguração dos alicerces digitais do mercado de trabalho — o algoritmo como infraestrutura que redistribui tarefas rotineiras e libera o sistema nervoso humano para decisões de relacionamento e julgamento. Para a Itália e a Europa, a chave será alinhar cultura organizacional, políticas de formação e governança de dados, de modo que a Agentic AI funcione como camada de inteligência e não como caixa-preta descolada das necessidades locais.















