Por Chiara Lombardi | Espresso Italia
Em uma cena que parece um reframe do tempo — como se um plano-sequência trouxesse à tona memórias coletivas — Gianna Capaldi Pratesi, natural de Chiavari, subirá ao palco da primeira noite do Festival de Sanremo aos 105 anos. Uma presença que é ao mesmo tempo emotiva e simbólica: não apenas pela idade, mas pelo que sua história atualiza sobre nossa relação com memória, cidadania e música popular.
Apesar de ter vivido grande parte da vida fora da Itália — partiu aos 28 anos para a Escócia, onde trabalhou como gelataia — Gianna mantém uma ligação íntima com a canção italiana. Dizem que ensaia todos os dias ao piano; ela mesma confirma que costuma tocar diariamente o instrumento. Para a noite de terça-feira, a senhora Gianna poderá entoar «24mila baci», de Adriano Celentano, um clássico que atravessou décadas e que, mais do que um sucesso, funciona como um espelho do nosso tempo: melodias que guardam episódios da vida e transformam a nostalgia em partitura coletiva.
Além da canção, haverá um momento de testemunho histórico. O apresentador Carlo Conti conversará com Gianna sobre o referendo institucional de 1946, consulta que deu origem à República Italiana e marcou a primeira vez em que as mulheres puderam votar no país — um marco que, em 2026, completa 80 anos. Gianna já afirmou: «Racconterò del mio primo voto per la Repubblica». Aquela declaração simples carrega um roteiro oculto da sociedade: a política vista pela lente da vida cotidiana, contada por quem a viveu e a transformou em memória ativa.
É fascinante observar como uma figura assim altera o tom de um festival que, muitas vezes, é reduzido ao espetáculo e à competição. A presença de Gianna opera como uma espécie de contraplano — uma pausa sensível que nos lembra que a cultura popular também é arquivo: tem voz, corpo e ação política. A partir de seu gesto — cantar, tocar piano, lembrar o voto — somos convidados a refletir sobre como as práticas íntimas se cruzam com eventos públicos e formam o eco cultural que chamamos de identidade coletiva.
Gianna fará 106 anos em 16 de março, poucos dias após sua passagem por Sanremo. Sua participação não é apenas um feito pessoal, mas uma cena emblemática do festival que, de tempos em tempos, funciona como palimpsesto: sobreposições de tempos e experiências que iluminam o presente.
Enquanto esperamos pela sua performance, vale pensar que são esses gestos aparentemente simples — tocar o piano, cantar um clássico, contar um voto — que reescrevem a narrativa pública. Em tempos de velocidade, a presença de uma senhora centenária no palco lembra que a cultura popular também preserva e reencena a memória social, como se o festival fosse, por algumas horas, um teatro da continuidade.
© Espresso Italia — Chiara Lombardi






















