O Financial Times publicou que o presidente Zelensky anunciaria eleições na Ucrânia para o dia 25 de fevereiro. A informação, porém, foi prontamente desmentida por autoridades de Kiev, que classificaram a matéria como imprecisa e ressaltaram que não há negociações formais com Moscou nesse sentido. Esse episódio — entre fatos e desmentidos — ilustra como, no atual palco geopolítico, a informação se transforma em mais uma peça do tabuleiro.
Paralelamente, o Reino Unido anunciou a concessão de mais 500 milhões de libras (aprox. 680,8 milhões de dólares) para reforçar as defesas aéreas da Ucrânia. A iniciativa foi confirmada pelo secretário de Defesa britânico, John Healey, ao chegar à reunião de ministros da Defesa da OTAN. Trata-se de um movimento estratégico que altera o alcance e a resistência das defesas ucranianas, sem, contudo, redefinir diretamente as linhas de contato no terreno — uma jogada de reforço logístico que muda a densidade de forças no tabuleiro, mas preserva a atual configuração política.
Do lado russo, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Maria Zakharova, acusou hoje a União Europeia de obstruir qualquer caminho de resolução, afirmando que Bruxelas incentiva o regime de Kiev a manter a continuidade das hostilidades com promessas de apoio ilimitado. A declaração faz parte de uma narrativa mais ampla de Moscou, que busca atribuir à UE a responsabilidade pelo prolongamento do conflito — uma tentativa de recalibrar a percepção internacional e redesenhar, diplomática e narrativamente, fronteiras invisíveis de influência.
Os ataques russos durante a madrugada tiveram repercussões civilmente tangíveis: quase 2.600 edifícios residenciais em Kiev ficaram sem aquecimento após danos à infraestrutura energética, conforme informações do prefeito Vitaliy Klitschko. Relatos oficiais apontam que os bombardeios feriram ao menos sete pessoas na capital e causaram apagões localizados — uma estratégia de economia de meios que atinge diretamente a resiliência urbana e o bem-estar da população.
No balanço dos incidentes: quatro feridos foram relatados em ataques recentes. Um ataque descrito como com mísseis balísticos feriu duas pessoas no distrito de Darnytsia, segundo o chefe da administração militar de Kiev, Timur Tkachenko. Na região de Dnipropetrovsk, o governador Oleksandr Ganzha informou sobre bombardeios em Dnipro que danificaram residências e automóveis, ferindo um recém-nascido e uma criança de quatro anos — ambos recebendo atendimento médico. Em Sinelnikove, ataques das forças russas teriam causado ao menos quatro mortos e três feridos em um episódio separado.
Do ponto de vista russo, o Ministério da Defesa de Moscou afirmou ter abatido 106 drones ucranianos em várias regiões, segundo a agência estatal Tass. Reivindicações mútuas sobre o uso e o abate de drones tornaram-se um traço recorrente da guerra, ampliando a noção de fronteira pelo espaço aéreo tático, onde a densidade de sensores e interceptadores altera substancialmente a liberdade de manobra.
Na Rússia, um ataque com projéteis atingiu uma instalação militar no sul do país, provocando incêndio e forçando a evacuação dos moradores de um vilarejo próximo. O governador da região de Volgograd, Andrej Bocharov, relatou que detritos caíram na área do depósito do Ministério da Defesa, no entorno da localidade de Kotluban. Não foram registradas vítimas civis, mas as autoridades optaram pela retirada preventiva de civis diante do risco de explosões.
Como analista, observo que a sequência de anúncios — reforço britânico, acusações russas à UE, ataques que miram infraestrutura energética e incidentes que atingem território russo — compõe uma tectônica de poder em movimento. O apoio ocidental aumenta a capacidade defensiva de Kiev; as ações russas pressionam a logística civil e militar ucraniana; e as mensagens públicas, entreboques e desmentidos (como o episódio do FT e a negação de Kiev) são peças de diplomacia de saliências e sombras. Em termos de xadrez estratégico, vivemos uma fase de jogadas concentradas na resistência e na mensagem, com o risco de escalada não apenas militar, mas informacional e humanitário.
O equilíbrio permanece frágil. Cabe aos atores internacionais — com a moderação que cabe a arquitetos da estabilidade — evitar que o tabuleiro se parta em movimentos irreversíveis que redesenhem, de fato, as linhas de influência na Europa.





















