Por Marco Severini – Em um movimento que reconfigura, ainda que silenciosamente, as linhas do poder e da exposição pública, os arquivos liberados no âmbito do caso Jeffrey Epstein trouxeram à luz menções que não atingem apenas os protagonistas diretos da rede de exploração, mas também familiares cujas vidas foram irrigadas pela sombra dos escândalos. Entre os nomes repetidamente citados nos documentos do Departamento de Justiça dos EUA estão as princesas Beatrice e Eugenie, filhas de Sarah Ferguson, a ex-duquesa de York.
Os arquivos mostram que as duas princesas — mencionadas centenas de vezes nas peças tornadas públicas — tiveram seus nomes vinculados diversas vezes às comunicações trocadas pelo financista condenado. Ao menos uma das referências traz um teor pessoal embaraçoso relativo à vida de Eugenie quando jovem. O impacto simbólico e midiático dessa exposição foi imediato no Reino Unido, onde as duas mantêm os títulos de Sua Alteza Real, embora tenham adotado um perfil mais reservado e não representem ativamente a família real.
“É angosciante para ambas se verem mencionadas por seus pais a um condenado por crimes sexuais”, comentou Russell Myers, que cobre assuntos da realeza para o tablóide The Mirror, em declaração reproduzida pela CNN. A reação pública não é apenas emotiva; trata-se de um movimento no tabuleiro da opinião pública que redesenha, ainda que temporariamente, os eixos de vulnerabilidade institucional.
Oficialmente, o representante de Sarah Ferguson havia afirmado no ano anterior que a ex-duquesa havia rompido todo contato com Epstein assim que tomou conhecimento da gravidade das denúncias. Os documentos, porém, contrariam essa narrativa em pontos centrais: evidenciam que Ferguson manteve trocas e que chegou a visitar Epstein em Miami cinco dias após sua libertação, em 2009, quando ele havia cumprido treze dos dezoito meses de pena relativos à condenação por prostituição de menores em 2008.
Dados contidos em e-mails, datados em torno de 27 de julho de 2009, confirmam um almoço em que participaram Sarah Ferguson e as filhas. Em uma correspondência, Epstein pergunta onde ela se encontrava; cerca de uma hora e meia depois, Ferguson responde que estava em Miami e que planejava chegar por volta das 12h30, acrescentando: “Seremos eu, Beatrice e Eugenie”. No dia seguinte, o financista notificou a sua então associada Ghislaine Maxwell sobre a realização do encontro.
Outra peça documental revela que Epstein custeou passagens aéreas para a ex-duquesa e as princesas, com valores que somam mais de 14 mil dólares. Em mensagens subsequentes, Ferguson elogia oportunidades relacionadas à sua marca e projetos editoriais, referindo um aumento de “energia” após o almoço e tecendo agradecimentos pessoais a Epstein, a quem chega a chamar de um irmão que sempre quis.
Esses elementos não apenas questionam a versão oficial de afastamento imediato, como também ilustram a complexidade das redes que orbitavam Epstein: laços de conveniência, circuitos de influência e pagamentos que funcionam como nós numa teia maior. Para observadores atentos da diplomacia pública e da gestão de reputação das casas reais, o caso é um exemplo de como as criações institucionais — títulos, conexões e privilégios — podem ser exploradas como instrumentos de acesso, ao mesmo tempo em que se tornam frágeis perante revelações documentais.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro da percepção pública: cada documento divulgado é uma peça deslocada que altera a posição relativa dos atores. A família real britânica, tradicionalmente arquiteta de silêncios institucionais e alicerces de representação, enfrenta aqui uma erosão reputacional que exige medidas cirúrgicas na gestão de danos e na reconstrução de confiança.
Enquanto as investigações e as divulgações prosseguem, permanece a pergunta sobre responsabilidade coletiva e os limites entre amizade, cortesia e conivência — questões que a história e a tectônica do poder seguirão julgando com lentidão institucional e velocidade midiática.





















