Por Aurora Bellini — Em janeiro, quando muitos lugares ainda despertam lentamente para o ano, o Zoológico de Londres acende uma rotina anual que é ao mesmo tempo científica e afetiva: o censo dos seus habitantes. Instituição histórica e pilar na pesquisa e na proteção da vida selvagem, o parque administrado pela London Zoological Society (ZSL) abriga hoje mais de 8 mil animais e aproveita a primeira janela do ano para revisar registos, atualizar bases de dados e assegurar o bem-estar de cada espécie.
As operações de contagem não são um simples número em uma planilha. Há procedimentos de catalogação, observação comportamental e contato com os tratadores para confirmar histórico médico, reprodução e necessidades específicas. Entre os momentos de trabalho técnico, brotam cenas que iluminam o dia a dia do zoológico: uma capivara sul‑americana, curiosa, aproxima‑se de uma tratadora; um agrupamento de pinguins que se reúne como se fizesse um pequeno conselho; e famílias inteiras de aves e mamíferos sendo observadas para identificar ninhadas e reorganizações sociais.
O processo ganha ainda mais significado porque a ZSL celebra este ano dois séculos de existência — um legado que combina educação pública, investigação científica e programas de conservação para espécies em declínio. O censo anual é uma ferramenta essencial: permite mapear populações, priorizar recursos e planejar ações de reprodução e reintrodução em programas que visam espécies ameaçadas.
Contar animais é também contar histórias. Cada ficha atualizada traz informações sobre origens, trajetórias de resgate, sucessos reprodutivos e necessidades de adaptação. A partir desses dados, equipes dedicadas definem planos para espécies classificadas como vulneráveis ou em risco crítico — porque sem registros rigorosos é impossível medir progresso ou risco, e sem compromisso institucional não se desenham rotas reais de proteção.
Entre os ensinamentos práticos do censo está a importância da convivência entre educação e ciência: visitantes veem de perto comportamentos naturais e conhecem programas de reprodução em cativeiro que podem, quando necessário, alimentar projetos de reintrodução. Ao partilharmos conhecimento, semeamos consciência — e isso é parte do compromisso ético que instituições como a ZSL assumem frente ao desafio global da perda de biodiversidade.
Como curadora de progresso, vejo esse ritual anual como um farol que ilumina caminhos mais seguros para espécies ameaçadas. Contar 8 mil vidas exige técnica, paciência e afeto; é um gesto que traduz cuidado em políticas concretas de conservação. E, ao revelar que até uma capivara pode se tornar protagonista de curiosidade e empatia, o zoológico nos lembra que cada ser vivo compõe um mosaico que vale proteger.



























