Por Aurora Bellini — Em New York, a tradição iluminou-se de novo: a 150ª edição do Westminster Kennel Club Dog Show arrancou com a prova de agility que, mais do que um complemento lúdico, revelou caminhos novos para a relação entre humanos e cães.
A abertura com o campeonato de Master Agility deixou claro que, embora o sempre elegante Border Collie mantenha sua aura de “príncipe” da disciplina — coroado nesta edição pelo brilhante Prove-it, vencedor entre os cães de raça —, o espetáculo do agility vai muito além da estética tradicional das exposições caninas.
Historicamente, as mostras como Westminster e Crufts nascem do culto à conformidade com padrões de raça: pelagem, movimento, proporções, pedigree. Mas o momento dedicado ao agility acende uma outra luz: a da aptidão, da parceria e do jogo. Em ambientes onde o destaque costuma recair sobre a pureza de linhagem e o perfeccionismo visual, o agility abre espaço para pluralidade — e para o inesperado prazer de ver um mestiço competir com graça e precisão.
Foi justamente isso que encantou o público quando Iron Man, um cão mestiço branco e preto de porte médio inscrito na categoria conhecida nos EUA como All American dog, completou o circuito sem erros, arrancando aplausos calorosos e lembrando a todos que a habilidade não tem pedigree.
Outro aspecto que ilumina a disciplina é a forma como ela trata as diferenças: a prova organiza os competidores por categorias de tamanho e ajusta a altura dos obstáculos de acordo com as proporções de cada animal. Assim, a disputa respeita as «alavancas» físicas de cada um — um detalhe técnico, mas também um gesto simbólico de igualdade. Em outras palavras, no campo do agility, a régua não é única; é calibrada para que o talento de cães pequenos seja tão visível quanto o de gigantes atléticos.
As imagens desta edição mostraram justamente isso: piccoletti — os pequenos — deslocando-se com rapidez, solucionando túneis e balanços com a delicadeza de quem sabe transformar vantagem em arte. A prova lembra que agility é, acima de tudo, um jogo bem treinado. E o jogo, como sabemos, é um terreno fértil para cultivar vínculos. Treinar para agility implica horas de companhia, foco e celebração compartilhada — antídotos eficientes contra a rotina solitária de muitos cães que passam grande parte do dia sem estímulos.
Da perspectiva do bem-estar animal e do convívio social, o valor do agility é duplo: fortalece a saúde física e mental dos cães e reforça a qualidade das relações entre donos e animais. Em tempos nos quais buscamos praticidades, essa disciplina nos convida a semear tempo e atenção — investimentos que revertem em estilo de vida mais saudável e em laços afetivos mais sólidos.
A presença de categorias como a All American dog também diz algo sobre identidade cultural: assim como a sociedade americana é resultado de um melting pot, seus cães refletem essa diversidade. Valorizar os mestiços nas pistas é reconhecer que a domesticação, a companhia e o mérito não se reduzem a certificados. É um gesto de renovação ética no horizonte das exposições caninas.
Ao mesmo tempo, não devemos romantizar sem critério. As exposições continuam sendo palco de debates: como equilibrar tradição e inovação? Como proteger o bem-estar animal frente a práticas de criação questionáveis? O agility oferece respostas práticas — atenção ao condicionamento, estímulos variados e diversão —, mas é apenas parte de um diálogo mais amplo que a comunidade cinófila precisa manter, com luz e rigor.
Em resumo, a abertura do Westminster em sua edição 150 trouxe à cena um rastilho de possibilidades. Sob os holofotes, o triunfo do Border Collie Prove-it ressaltou excelência técnica; a vitória de Iron Man celebrou a autenticidade dos mestiços. E, entre saltos, túneis e balanços, revelou-se uma verdade simples e humana: no agility, as diferenças viram força e o jogo transforma treinamento em encontro.
Para quem acompanha o universo canino com olhos de curadora, como eu, é reconfortante observar que, mesmo em mostras centenárias, ainda cabe renovar o repertório — iluminar novos caminhos, cultivar valores e tecer laços que transcendam o espetáculo. O agility, com sua poesia executada em movimento, é uma dessas luzes: prática que educa, aproxima e celebra o potencial de cada cão, independentemente de rótulos.
Seja você dono de um ágil Border Collie, de um esperto mestiço ou de um pequeno cheio de vontade, a lição do Westminster 150 é clara: no campo do afeto e da aptidão, o que importa é a parceria. E parceria se constrói no cotidiano, com respeito, jogo e tempo compartilhado — sementes de um legado que vale a pena cultivar.





















