Uma foto que transmite tranquilidade traz, na sua luz, uma história de tensão para o futuro de uma espécie. No clique, um urso polar parece divertir-se ao roçar o corpo na neve — cena que, à primeira vista, ilumina o nosso dia. Mas essa imagem, feita no zoológico de Nyíregyháza, na Hungria, revela também o contraste entre segurança artificial e o declínio drástico das populações em liberdade.
A foto, assinada pelo fotógrafo Attila Balazs e distribuída pela agência EPA, foi capturada no norte da Hungria, a cerca de 250 km de Budapeste. Parte da serenidade aparente vem também de um fenômeno climático atípico: as precipitações extraordinárias que têm coberto de neve vastas regiões da Europa central nas últimas semanas. É um sopro branco sobre uma narrativa bem mais sombria quando olhamos para o habitat natural dos ursos polares.
O verdadeiro desafio dos ursos polares está no aquecimento global e no recuo continuado do gelo do Ártico. O derretimento da banquisa reduz as áreas onde esses animais, excelentes nadadores, costumam se deslocar e caçar. A fragmentação das plataformas de gelo — blocos que se desprendem e vagam à deriva — complica a estratégia de caça e encurta o alcance das suas presas, sobretudo as focas.
Além disso, a dinâmica das cadeias alimentares está mudando: as pequenas “zatteras” de gelo que abrigavam as focas se tornam cada vez menos estáveis, e predadores como as orcas aproveitam a oportunidade para surpreender esses animais, empurrando as plataformas e lançando as presas ao mar, onde a fuga é quase impossível diante do maior predador marinho.
Outro foco de preocupação é a multiplicação das pressões humanas sobre o Ártico. O derretimento facilita o acesso a territórios antes inacessíveis — da extração de recursos à expansão de rotas de navegação que tornam real o sonho antigo do Passagem Noroeste (ou Noroeste/Nordeste, dependendo do ponto de vista). A consequência é um aumento de tráfego marítimo, risco de poluição, e novos interesses geopolíticos sobre a Groenlândia e o gelo que resta. E, como a história nos mostra, interesses estratégicos raramente priorizam a natureza.
Na imagem do zoológico, por outro lado, o animal encontra uma estabilidade que seus parentes selvagens estão perdendo. Esse paradoxo — onde um indivíduo pode viver “melhor” em cativeiro do que milhares em liberdade — ilumina a urgência de repensarmos políticas públicas, proteção de habitats e estratégias que reduzam as emissões e preservem o gelo que sustenta ecossistemas inteiros.
Como curadora de histórias de progresso, enxergo nesta cena uma oportunidade de semear mudança: que a ternura do momento sirva de veículo para atenção e ação. É preciso tecer novas alianças entre ciência, conservação e governança, para que a luz que essa foto projeta seja o começo de um renascimento real para o Ártico e seus habitantes.






























