Por Aurora Bellini, Espresso Italia — Em mais um episódio que acende debates sobre energia e biodiversidade, Donald Trump compartilhou em suas redes sociais uma imagem de um rapace abatido por uma estrutura de vento e a apresentou como prova de que as turbinas eólicas estariam matando as “nossas lindas águias calvas”. A apuração da Espresso Italia, porém, revela que a fotografia não representa a ave símbolo dos Estados Unidos, mas sim um falcão menor e de coloração uniforme, e que a cena não foi registrada em solo americano.
A imagem em questão — originalmente publicada em 2017 por um jornal do Oriente Médio, conforme verificação da Espresso Italia a partir dos detalhes visíveis na foto — mostra caracteres hebraicos no tronco da turbina, um indício claro de que o equipamento não está localizado nos Estados Unidos. Além disso, as características físicas do animal (ausência de cabeça branca e tamanho reduzido) confirmam que não se trata da típica águia calva, facilmente reconhecível por seu porte e pela cabeça branca.
O post, publicado na plataforma Truth, foi também amplificado por perfis associados à Casa Branca e por contas ligadas ao Departamento de Energia dos EUA, que vêm criticando com frequência projetos eólicos por motivos estéticos, econômicos e ambientais. Após a difusão, líderes políticos de ambos os partidos se manifestaram, apontando o equívoco e cobrando checagens mais rigorosas antes de usar imagens para sustentar argumentos de campanha.
É importante separar duas frentes dessa discussão. Primeiro, existe uma crítica legítima e necessária sobre impactos ambientais de infraestruturas humanas: estudos apontam que turbinaseólicas podem causar mortes de aves. Segundo, a escala desse efeito deve ser contextualizada. Relatórios, como o do Massachusetts Institute of Technology de 2023, indicam que, embora centenas de milhares de aves morram anualmente em colisões com turbinas globalmente, esse número é pequeno quando comparado a outras causas de mortalidade aviana — colisões com edificações, predadores domésticos e poluição, por exemplo, matam muito mais aves.
Ao errar a identificação do animal e o local da foto, a mensagem perde força e abre espaço para acusações de desinformação num tema que merece rigor científico e debate informado. A gafe também ilustra como imagens podem ser instrumentais em narrativas políticas, seja para iluminar problemas reais, seja para polarizar opiniões.
Como curadora de histórias de impacto, vejo nesta ocorrência a oportunidade de cultivar um diálogo mais transparente entre tecnologia e conservação: é possível semear inovação e expandir a matriz energética reduzindo danos à vida selvagem se incentivarmos pesquisa, monitoramento e soluções de mitigação, como rotas de instalação mais conscientes, cercas visuais e sistemas de desligamento temporário em áreas de alto tráfego de aves.
Esta não é uma defesa acrítica da energia eólica, tampouco um ataque às preocupações levantadas por seus críticos; é um chamado para que tenhamos um horizonte límpido e informações precisas ao decidir o futuro energético. Iluminar caminhos exige apenas uma coisa: honestidade sobre os fatos.





















