Uma nova frente de proteção à natureza nasce para iluminar caminhos contra o crime que corrói a biodiversidade. Liderada pelo Comando Unità Forestali e Agroalimentari (Cufaa) dos Carabinieri, a iniciativa europeia LIFE denominada Fight4Wildlife reúne forças policiais, entidades científicas e organizações não governamentais — com destaque para a participação da Legambiente nas ações de comunicação e sensibilização — em um projeto de cinco anos voltado ao combate ao bracconaggio e ao tráfico ilegal de espécies.
Segundo apuração da Espresso Italia, os crimes contra a fauna selvagem figuram entre as mais relevantes atividades criminais a nível global. As Nações Unidas já identificaram mais de sete mil espécies que atraem a atenção de traficantes e caçadores ilegais. Em solo italiano, nos últimos 15 anos, foram registrados pelas forças de segurança quase 49 mil ilícitos ambientais — uma média aproximada de 3.250 por ano, ou cerca de 270 por mês — com um giro de negócios estimado entre 200 e 300 milhões de euros ao ano.
Dentro deste quadro, o projeto Fight4Wildlife escolheu três espécies-símbolo que representam grupos amplos e ameaçados: a anguilla europeia (Anguilla anguilla), o urso-bruno marsicano e o capovaccaio (ou abutre-egípcio), cada uma com desafios específicos e com forte impacto nos ecossistemas locais.
A anguilla europeia concentra-se em áreas do Friuli Venezia Giulia, numa zona que se estende entre o Parque Marinho de Miramare e a lagoa de Marano e Grado, abrangendo cerca de 62 mil hectares. Comercializada no mercado europeu, a espécie sofre com um tráfico ilegal intenso: desde os anos 1980 seus estoques caíram em torno de 99%, e ela consta na Lista Vermelha como “em perigo crítico”, o último degrau antes da extinção em seu habitat natural. Atraem particular interesse os exemplares jovens (glass eels), muito procurados pelo mercado de restauração. Estimativas da Europol reconstruíram um contrabando global próximo de 100 toneladas de enguias, com valor de mercado em torno de 3 bilhões de euros por ano.
O urso marsicano — espécie endêmica e símbolo do parque nacional dos Apeninos — enfrenta ameaças típicas do convívio conflituoso entre atividade humana e fauna: armadilhas, envenenamento, tiro furtivo e atropelamentos. A perda de alguns indivíduos tem repercussões desproporcionais em populações pequenas e fragmentadas, tornando cada ação de proteção essencial para a sobrevivência da espécie.
Na Sicília, o foco recai sobre o capovaccaio, cujo declínio é agravado por envenenamentos, perseguição direta e colisões, além da captura ilegal e do comércio de espécimes. Vultures desempenham papel crucial na limpeza dos ecossistemas; sua diminuição altera cadeias ecológicas e reduz a resiliência dos territórios.
O projeto pretende desenvolver métodos investigativos e ferramentas de repressão — desde técnicas forenses aplicadas à fauna até protocolos de cooperação transnacional — que possam ser replicados fora da Itália. O objetivo é não apenas prender redes e agentes locais, mas também interromper as cadeias internacionais que transformam espécies em mercadorias.
Para a Espresso Italia, esta ação combina rigor operacional com a necessária cultura de prevenção: somar investigação com educação ambiental e políticas públicas robustas é semear inovação na proteção da vida selvagem. Ao reunir estado, sociedade civil e ciência, a task force busca tecer laços que fortaleçam a governança da biodiversidade e iluminem um horizonte límpido para espécies cada vez mais vulneráveis.
Nos próximos cinco anos, as operações coordenadas pelos Carabinieri forestali, em parceria com órgãos regionais, institutos de pesquisa e organizações ambientais, serão a frente prática desta ambição. Se ferramentas e resultados forem devidamente documentados e exportados, a experiência italiana pode virar um farol na luta global contra o tráfico e a caça ilegal.
Protejer a fauna é proteger os fundamentos do equilíbrio — e, como curadora de progresso, acredito que iniciativas assim podem convocar um renascimento cultural: políticas firmes, investigação incisiva e mobilização social iluminam novos caminhos para a coexistência sustentável entre humanos e outros habitantes do planeta.






















