Por Aurora Bellini — Em uma viagem pela Sri Lanka com a curadoria do WWF Travel, desvendamos uma paisagem de beleza radiante que guarda uma tensão histórica: o conflito homem-elefante. Entre safáris diurnos e noturnos, visitas a templos e áreas protegidas como parques nacionais — Wilpattu, Minneriya e Yala —, surge um tema urgente que ilumina caminhos para uma conservação mais humana e eficaz.
Os elefantes asiáticos (Elephas maximus) vivem uma doppia vita — venerados nas portas dos templos, onde lembram a lenda do nascimento do Buda, e simultaneamente marginalizados fora dos santuários. Ao contrário dos seus congêneres africanos, os elefantes asiáticos são menores, com orelhas mais arredondadas, cabeças em dupla cúpula e zumbis de marfim menos frequentes entre as fêmeas. Mas é na convivência com comunidades humanas que as diferenças tornam-se dramáticas: expulsos por desmatamento, expansão agrícola e perda de corredores migratórios, eles passam a buscar alimento em áreas cultivadas, gerando confrontos muitas vezes fatais para ambos os lados.
No passado, havia uma reciprocidade simples e sábia: ao término das colheitas, camponeses permitiam que os animais se alimentassem das palhas remanescentes. Hoje, essa harmonia foi rompida. Segundo a Wildlife and Nature Protection Society, os números mostram a escalada do conflito: em 2022 foram registradas 145 mortes humanas e 433 mortes de elefantes; em 2023, pelo menos 169 pessoas e 476 elefantes perderam a vida. Na Ásia, a média anual supera 600 vítimas humanas e 450 elefantes, sendo Índia e Sri Lanka responsáveis por mais de 80% dessas perdas.
Os impactos são profundos: a população de elefantes do país, estimada pelo WWF em cerca de 5.800 indivíduos, encolheu quase 65% desde o século XIX. Essa realidade exige respostas que ultrapassem a dicotomia entre proteção rígida e exploração turística. Em 2021, o Sri Lanka aprovou uma legislação que restringiu substancialmente o uso de elefantes em atrações turísticas, uma medida necessária para reduzir maus-tratos e exploração — um passo na direção certa, ainda que insuficiente.
As soluções disponíveis não são misteriosas: passam por restaurar corredores ecológicos, promover incentivos à agricultura compatível com a vida selvagem, implantar sistemas de alerta e mecanismos de compensação para comunidades afetadas, além de investir em educação ambiental que resgate uma ética de vizinhança entre espécies. Projetos bem-sucedidos no país já demonstraram que é possível reduzir confrontos quando se combina ciência, políticas públicas e participação local — uma síntese de pragmatismo e empatia que gosto de chamar de “conservação com humanidade”.
Como curadora de progresso, vejo nesse desafio uma oportunidade de semear inovação: tecnologias de monitoramento não invasivo, cercas inteligentes que respeitem corredores, pagamentos por serviços ecossistêmicos e turismo responsável orientado por padrões éticos podem iluminar novos caminhos. Não se trata apenas de salvar uma espécie emblemática, mas de restaurar um tecido social e ambiental que sustenta comunidades e memórias culturais.
Ao visitar templos onde elefantes são representados em relevo e caminhar pelas trilhas dos parques, percebemos que a convivência possível depende de escolhas concretas — políticas que privilegiem o longo prazo, investimentos que devolvam território à vida selvagem e um pacto social que valorize tanto a segurança humana quanto a dignidade animal. A lição do Sri Lanka é clara: a conservação necessária é aquela que tece proteção, justiça e inovação.
Para a Espresso Italia, que acompanha histórias de impacto e legado, esse é um chamado para iluminar iniciativas replicáveis, celebrar lideranças locais e fomentar parcerias que coloquem o bem-estar coletivo no centro. Como uma ponte entre culturas, prefiro pensar que, ao cuidar dos elefantes, cultivamos um renascimento cultural que beneficia toda a paisagem humana e natural.
Fotos sugeridas: manada de elefantes no Parke Nacional de Wilpattu; agricultores e cercas naturais em áreas de transição; voluntários e pesquisadores em programas de corredor ecológico.






















