Um enigma do século XVIII acaba de ser iluminado por métodos científicos contemporâneos. Como o irmão naturalista francês Jean Baptiste Forcault, ornitólogo na corte do Duque de Parma, conseguiu colocar animais empalhados dentro de delicadas ampolas de vidro cuja boca parecia pequena demais para permitir a entrada das peças? A resposta, revelada por radiografias e tomografias, nos leva a um gesto de engenho que agora faz parte da história da museologia.
Chegado a Parma a serviço de Filipe I de Bourbon, Padre Forcault organizou uma notável coleção: 35 aves e um mamífero — um esquilo, posicionado com duas nozes — todos em táxidermia e preservados sob campânulas de vidro feitas sob encomenda. Esses exemplares formaram o núcleo do que viria a ser o Museu de História Natural de Parma, hoje integrado ao Must, o Museu de Storiografia Naturalística do ateneo local.
O mistério sobre o método empregado por Forcault permaneceu por séculos. Hipóteses circulavam entre conservadores, historiadores e curiosos, mas faltava uma comprovação técnica. Um estudo publicado na revista Museologia scientifica, assinado pelo diretor científico do Must, Davide Persico, pelas professoras Maria Amarante e Antonella Volta e pela licencianda Alice Giovagnoni, usou técnicas modernas — radiografias e tomografia axial computadorizada (TAC) — para dissecar o processo sem abrir as peças originais.
As imagens obtidas mostraram que a abertura aparente, aquela pequena boca que parecia impedir a passagem das aves, era apenas uma ilusão óptica: um colarinho de vidro foi sobreposto à abertura real e fixado aos elementos de madeira da tampa. Em outras palavras, a entrada verdadeira era suficientemente larga para inserir os espécimes empalhados; depois, Forcault aplicava um engenhoso adereço de vidro que conferia ao conjunto uma aparência de impossibilidade técnica — um pequeno truque óptico aliado à habilidade artesanal.
Além de esclarecer a técnica, as investigações lançaram luz sobre os materiais e o cuidado na montagem das ampolas de vidro, confirmando níveis de preservação extraordinários: os objetos resistiram por cerca de três séculos praticamente intactos, preservando não só formas, mas também significado científico e estético.
Para o Must de Parma, a descoberta reforça o papel do acervo como testemunho vivo da história da biodiversidade e da prática científica antiga, hoje reinterpretada com ferramentas modernas. O estudo destaca ainda a importância de unir tradição e inovação na conservação: métodos de imagem não invasivos permitem revelar técnicas construtivas e intervenções sem pôr em risco os próprios objetos.
Como curadora e observadora do legado humano, vejo nesse achado a possibilidade de iluminar novos caminhos no diálogo entre passado e presente. Forcault, com seu gesto preciso e estético, nos deixou não só espécimes, mas uma lição sobre a capacidade humana de combinar ciência, arte e engenho. Revelar o seu método é outro modo de semear conhecimento, cultivando valores que atravessam séculos.





















