Por Aurora Bellini, para Espresso Italia
A Reserva Natural Orientada Saline di Trapani e Paceco — um patrimônio vivo de biodiversidade e memória cultural no litoral da Sicília — enfrenta hoje uma crise que revela a fragilidade dos ecossistemas diante das mudanças climáticas. O alerta partiu do WWF Itália, que relata um quadro preocupante: em muitos setores o complexo de tanques e lagunas das saline aparece agora como uma verdadeira laguna, com vastas áreas totalmente alagadas e boa parte das arginas submersas.
Essa transformação não é apenas visual: tem efeitos diretos sobre a vegetação, a avifauna e as estruturas construídas ao longo de décadas para proteger habitats e espécies. As saline são um ponto de parada estratégico na rota migratória rumo à África, abrigando milhares de aves — incluindo bandos de fenicotteros — e espécies raras que tornaram a área candidata a reserva da biosfera (MaB) da UNESCO. Agora, com as marés persistentemente altas e a ação de tempestades como o ciclone Harry, produtores locais e especialistas apontam que nunca haviam observado níveis de água tão elevados e duradouros.
O WWF Itália descreve o cenário após uma série de vistorias: alagamentos difusos comprometeram porções significativas do sistema protegido, afetando o funcionamento histórico das saline e aumentando a erosão costeira — principalmente nos trechos mais próximos ao mar. Onde antes havia caminhos, muros de contenção e infraestruturas tradicionais do trabalho salino, hoje há segmentos danificados ou inundados, reduzindo a capacidade de manejo das águas e piorando a situação para os ninhos e áreas de alimentação das aves.
Há, no entanto, sinais de resistência e esperança que merecem ser iluminados. As saline são fruto de uma longa história natural e cultural: paisagem modelada por trabalho humano e processos geológicos ao longo dos séculos, que também se transformou em santuário para a vida selvagem. Proteger esse legado exige intervenções rápidas e bem planejadas — desde a recuperação das arginas e sistemas de drenagem até estratégias de adaptação costeira que atendam tanto à conservação quanto às comunidades locais.
Como curadora de progresso e amante de cenários que florescem mesmo frente às adversidades, vejo aqui a oportunidade de semear soluções integradas: unir conhecimento científico, gestão pública, saberes tradicionais dos produtores de sal e financiamento direcionado para restabelecer a funcionalidade dos habitats. A resposta precisa ser técnica e humana — para que possamos não só reparar o dano, mas reimaginar uma convivência resiliente entre sociedade e natureza.
Em termos práticos, pedem-se intervenções urgentes: monitoramento contínuo dos níveis de água, reforço das arginas vulneráveis, planos de contenção da erosão costeira e medidas específicas para proteger áreas de nidificação durante a temporada reprodutiva. Também é essencial considerar o impacto das alterações climáticas em escalas mais amplas, integrando as saline em planos regionais de adaptação e conservação.
Iluminar esses caminhos exige vontade política e financiamento estratégico — um convite para que o legado das Saline di Trapani e Paceco não se perca, mas floresça novamente. Preservar essa área é cuidar de uma luz viva da Mediterrâneo: um farol ecológico que merece ser restaurado com sabedoria e afeto, por aqueles que reconhecem seu valor para a biodiversidade e para as comunidades que dela dependem.
Espresso Italia continuará acompanhando a situação e chamando atenção para ações concretas que possam garantir um horizonte límpido para as saline e as espécies que ali se abrigam.






















