Por Aurora Bellini — Em um gesto de delicada resistência, Giuseppe Roccuzzo transforma memórias de dor em música e afeto. Hoje reconhecido pelo público após a passagem por X Factor, ele recorda os dias em que era alvo de bullying no colégio, fechado no banheiro enquanto colegas riam do lado de fora. Naquele espaço escuro e solitário, a música foi a luz que lhe salvou: ele repetia em silêncio as notas de La Cura, de Franco Battiato, para não sucumbir ao medo.
“A música era a minha terapia contra o bullying”, diz Roccuzzo, com a voz por vezes embargada. Esse fio de som que o sustentou na adolescência tornou-se, anos depois, ponte para uma carreira e para um novo propósito. Ao lado do palco e das luzes da televisão, cresceu outro sol de apoio: sua buldogue francesa, Ohana.
Ohana — palavra havaiana que significa família — não é apenas um nome; é um testemunho de laços que restauram. Roccuzzo afirma que encontra na cadela a empatia e o afeto que lhe foram negados quando jovem. “Ela me devolve o respeito que me tiraram na adolescência. Ao contrário de muitos, nunca me julgou”, conta o cantor. É essa cumplicidade que alimenta vídeos nas redes onde ele canta e ela, atenta, o escuta, num ritual de conexão que ilumina a rotina.
Movido por esse vínculo, Roccuzzo assinou a canção Ohana, composta em parceria com Giovanni Segreti Bruno, Luca Napolitano e o maestro Maurizio Fabrizio. A faixa é ao mesmo tempo uma declaração de amor e um alerta social: um apelo contra o crescente fenômeno do abandono de animais. “Não se abandona quem te dá tudo”, canta ele, traduzindo em versos a ideia de responsabilidade e respeito que os animais merecem.
O cantor lembra que na Itália, cerca de 55 mil cães e gatos são abandonados a cada ano — um número que, como uma nuvem sombria, contrasta com o calor que animais de estimação trazem às nossas vidas. Roccuzzo escolheu transformar sua história pessoal numa mensagem pública: usando a sua visibilidade para semear consciência. A sua canção busca não só sensibilizar, mas também iluminar caminhos práticos para reduzir o abandono, convocando ouvintes a assumir compromisso e compaixão.
Na trajetória de Roccuzzo, a arte aparece como juramento ético: a música que o salvou torna-se agora um instrumento para salvar outros — em especial os mais silenciosos. Com elegância sincera, ele fala de cura e legado, mostrando que a atenção e o afeto podem reconfigurar destinos. Ohana, a buldogue, é tanto musa quanto espelho: nela ele encontra coragem, e através dela ele devolve ao mundo uma canção que pulsa com compromisso.
Essa história de superação e cuidado nos lembra que, quando escolhemos acolher, estamos cultivando um horizonte mais límpido. Roccuzzo segue em turnê e nas redes, levando não só suas músicas, mas um convite luminoso: transformar memórias difíceis em ações concretas de cuidado. Porque, como sua própria canção resume, o vínculo entre humano e animal é ensinamento — uma lição prática de respeito e amor incondicional.






















