Assinado por Aurora Bellini, para Espresso Italia — Os laços que cultivamos com nossos cães frequentemente brilham como relações afetivas profundas, mas não se confundem com uma troca entre pares. Ao iluminar esse tema, converso com pesquisas e especialistas para revelar como olhares, hormônios e comportamentos sustentam um vínculo único, pleno de afeto sem julgamento.
Loreto Sanchez, psicólogo e colaborador da Fundação Affinity, lembra que animais e humanos podem formar “vínculos afetivos similares” aos que se estabelecem entre pessoas porque compartilham fundamentos biológicos do apego. “O gesto de olhar nos olhos é um dos sinais mais potentes de intimidade, confiança e conexão emocional”, diz Sanchez. Esse contato visual eleva os níveis de oxitocina e desencadeia uma resposta hormonal em ambos — humano e cão — instaurando um verdadeiro ciclo afetivo que permite a conexão física e emocional.
Na presença do animal, o corpo tende a entrar em estado de relaxamento: a sua companhia ajuda a regular nossas emoções e, segundo o especialista, os humanos chegam a se sintonizar com a respiração do cão, sentindo-se mais alinhados e tranquilos. É como quando um raio de sol atravessa uma janela e, por um momento, tudo parece mais claro e calmo — um pequeno renascimento no cotidiano.
Estudos científicos reforçam essa observação. Pesquisas apontam que interações com cães e gatos ativam redes neuronais ligadas ao apego, recompensa e empatia. No caso dos cães, há uma escuta ativa e ausência de julgamento: eles olham com ternura e oferecem atenção e lealdade sem exigir padrões emocionais complexos. Esse afeto sem julgamento cria um espaço de liberdade onde as pessoas podem ser mais autênticas do que em muitas relações humanas.
Por isso muitas pessoas descrevem o laço com seu animal de estimação como um relacionamento profundamente significativo, comparável a outras relações importantes da vida. No entanto, Sanchez e pesquisadores ressaltam uma distinção crucial: não se trata de uma relação entre iguais. Os animais não têm as mesmas responsabilidades emocionais — eles não podem ser cobrados por suportar tarefas ou decisões afetivas que são humanas.
Reconhecer que o vínculo não é paritário é, na verdade, uma forma nobre de retribuir: significa cuidar do bem-estar do animal, proteger sua vulnerabilidade e oferecer respeito. O cão, sendo um ser dependente, merece que sua vida seja cultivada com atenção, limites saudáveis e carinho — um gesto que revela maturidade humana e compaixão.
Quando pensamos nesses laços à luz do que aprendemos, somos convidados a semear responsabilidade junto ao afeto: iluminar caminhos de convivência mais conscientes, onde o amor se traduz em proteção e cuidado. Em outras palavras, amar um cão é, acima de tudo, aceitar a posição de guardião afetivo — uma tarefa que, se feita com respeito, enriquece tanto quem cuida quanto quem é cuidado.
Enquanto celebramos o calor dessa companhia — a presença que acalma, o olhar que conforta — vale lembrar que esse amor pede responsabilidade. Ao cultivar esse vínculo com seriedade e ternura, tecemos laços sociais e humanos que deixam um legado de bem-estar e respeito para as próximas gerações.






















