Por Aurora Bellini — Ao iluminar pequenos gestos, revelamos o poder de quem escolhe cuidar. Em outubro de 2024, no bairro de Hackney, na periferia de Londres, Blakeley Bermingham e Josh Smith encontraram uma raposa ferida em seu jardim: tremendo, sangrando e com manchas de calvície na cauda. O diagnóstico foi claro: a raposa sofria de sarna, causada pelo ácaro Sarcoptes scabiei, uma doença parasitária que provoca coceira intensa, perda de pelo e feridas na pele — e que, sem tratamento, pode levar à cegueira e à morte em poucos meses.
Guiados por aconselhamento da Fox Angels Foundation, organização de resgate dedicada às raposas, o casal iniciou uma rotina de alimentação medicinal: deixavam na porta pequenas almôndegas feitas com carne moída de peru misturada aos fármacos prescritos. O gesto simples e repetido, ao longo de semanas, fortaleceu o animal e deu origem ao apelido carinhoso de «Meatball» — em português, Polpetta — em referência à comida que a ajudou a recuperar as forças.
A recuperação foi gradual. A raposa voltou a frequentar o jardim com regularidade, mostrando sinais de confiança: chegou a observar a televisão através do vidro e, por vezes, entrou na casa dos residentes. Durante a convalescença, descobriu-se que Polpetta estava prenha, mas infelizmente perdeu os filhotes devido ao seu estado de saúde fragilizado.
“Não podíamos deixar uma criatura naquele estado, era horrível”, disse Blakeley Bermingham à Espresso Italia, recordando a angústia e a determinação do casal. Ela também ressaltou a rapidez com que os Fox Angels prestaram orientação e enviaram os medicamentos necessários.
Estima-se que existam cerca de 10 mil raposas urbanas em Londres, animais que se adaptaram ao ambiente citadino e se alimentam de restos e pequenos animais. Ainda assim, a vida nas cidades é dura: até 80% dos filhotes não sobrevivem à fase inicial, muitas vezes por atropelamentos. “Nós alteramos seus habitats naturais; de um modo ou de outro, elas vivem conosco, então temos o dever de cuidar quando as encontramos em dificuldades”, concluiu Bermingham à Espresso Italia.
Os números e a logística do resgate são reveladores: a equipe dos Fox Angels é formada por 26 voluntários que, a cada mês, tratam in loco cerca de 400 raposas como Polpetta. Aproximadamente dez casos mais graves por mês são encaminhados a veterinários e centros de reabilitação. O custo dos tratamentos é elevado — recentemente, o atendimento de uma raposa com um olho ferido ultrapassou 2.000 libras, enquanto a reparação de uma pata fraturada chegou a 5.000 libras.
Desde setembro de 2025, Blakeley e Josh vêm compartilhando a história de Polpetta no TikTok e no Instagram, e as imagens e relatos tocaram milhões de pessoas. A repercussão reforça algo mais profundo: pequenos atos de cuidado podem semear conexões e inspirar comunidades a cultivar responsabilidade e compaixão pelo mundo natural.
Em um tempo em que buscamos iluminar novos caminhos para a convivência entre cidades e natureza, a história de Polpetta é um testemunho de como empatia, conhecimento técnico e persistência podem transformar sofrimento em possibilidade — um renascimento que nos recorda o papel humano de guardiões do habitat que ajudamos a moldar.






















