Por Aurora Bellini — Em mais um capítulo que apaga e reacende esperanças, o primeiro ato do julgamento pela morte da ursa Amarena, símbolo do Parque Nacional de Abruzzo, Lazio e Molise, foi interrompido por uma questão formal. A audiência realizada no Tribunal de Avezzano terminou com a aceitação de uma exceção de nulidade processual, o que obriga a Procuradoria a renovar os atos e força o processo a recomeçar do zero.
O réu, Andrea Leombruni, é acusado de ter abatido a ursa Amarena a tiros na madrugada de 31 de agosto de 2023, na periferia de San Benedetto dei Marsi (L’Aquila). Segundo a acusação, a ursa foi atingida enquanto estava com seus dois filhotes, que ficaram órfãos. As guardas do parque encontraram o animal agonizando; ele veio a falecer pouco depois, diante da residência atribuída ao acusado — um açougueiro que tinha 56 anos à época dos fatos.
A magistrada Francesca D’Orazio acolheu a alegação de nulidade formulada em audiência, considerando que o ato de citação preparado pela Procuradoria apresentava lacunas do ponto de vista formal. Para a juíza, esse vício compromete a validade de toda a fase introdutória do processo, impondo, portanto, a repetição dos atos de acusação.
Com isso, o rito terá de ser reiniciado: haverá nova citação e designação de nova data para o julgamento. A decisão reacende o risco de um adiamento prolongado — e, em última instância, da prescrição — caso os prazos não sejam rapidamente cumpridos pela acusação.
Em comunicado à La Via Italia, a parlamentar e presidente da Leidaa, Michela Vittoria Brambilla, afirmou: “Superados os vícios processuais, espero que o processo comece o quanto antes: já esperamos tempo demais para que se faça justiça”. A Leidaa mantém-se constituída como parte civil e seguirá exigindo responsabilização pelo que definiu ser um crime de grande gravidade, que atingiu diretamente a reduzida população do urso marsicano.
Ao todo, cerca de cinquenta entidades e associações ambientalistas se constituíram como partes civis, além da Região Abruzzo, reforçando a pressão social e institucional para o avanço célere do processo.
Também em nota à La Via Italia, Annamaria Procacci, responsável pela fauna selvática da Enpa, declarou que “a exigência de justiça por Amarena, por seus filhotes e por toda a população dos ursos marsicanos não se interrompe diante de um adiamento por motivos processuais. Seguiremos cada fase com vigilância e determinação”.
O episódio sublinha dois vetores importantes: a fragilidade de uma espécie em risco e a necessidade de um aparato judicial que não permita que formalidades atrasem a resposta do Estado diante de agressões à fauna. A paralisação por nulidade é, do ponto de vista técnico, um mecanismo de correção; na prática, porém, tem o efeito de empurrar para frente a esperança de responsabilização, enquanto as consequências ecológicas — o desaparecimento de um progenitor e a pressão sobre uma população já reduzida — não retrocedem.
À medida que as instituições refinam seus procedimentos e as associações mantêm a luz sobre o caso, cabe à sociedade civil semear vigilância e empatia: garantir que a investigação transcorra com rigor e que o processo ilumine novos caminhos para a proteção dos plantígrados e do patrimônio natural. Amarena, seus filhotes e a comunidade científica merecem uma resposta célere e transparente. E a justiça, quando tardia, precisa ser acelerada com determinação.
Agora, cabe à Procuradoria renovar formalmente os atos e marcar nova audiência — um recomeço processual que todos esperam ver transformado em uma via clara rumo à responsabilização e à reparação moral e institucional.






















