Uma nova página se abre no mapa das invasões marinhas do nosso Mar Mediterrâneo. Um exemplar do peixe-escorpião (Pterois miles), espécie originária do Mar Vermelho e do Oceano Índico, foi capturado recentemente ao largo de Aci Castello, na província de Catânia. O achado, documentado por especialistas locais e entregue para análises científicas, acende um alerta sobre o impacto desta espécie na biodiversidade autóctone e sobre os riscos que seus espinhos venenosos representam para as pessoas.
A sinalização do avistamento chegou pela equipe da Área Marinha Protegida Isole Ciclopi — por meio de Salvatore Gatto — e pela pesquisadora Giuseppina Alongi, da Universidade de Catania. O animal foi encaminhado para o laboratório do professor Francesco Tiralongo, ictiologista da Universidade de Catania e um dos principais especialistas europeus em invasões biológicas no Mediterrâneo. A documentação presencial de um exemplar permite análises muito mais precisas do que as habituais fotografias feitas por mergulhadores ou pescadores, que na maioria dos relatos não resultam na entrega do espécime para exame.
Em conversa com a equipe da Espresso Italia, o professor Tiralongo explicou que o peixe-escorpião é facilmente reconhecível por suas grandes nadadeiras peitorais e pelas longas espinhas dorsais que alojam veneno — seu mecanismo de defesa mais eficaz. Trata-se de um predador altamente eficiente, capaz de consumir grandes quantidades de peixes pequenos e crustáceos, com potencial para alterar cadeias alimentares locais e reduzir populações de espécies nativas.
A chegada e a expansão desta espécie no Mediterrâneo são frequentemente atribuídas à passagem pelo Canal de Suez, um corredor que tem permitido o que especialistas chamam de migração lessepsiana. Segundo as observações compiladas pelo projeto AlienFish, do qual o professor Tiralongo participa em parceria com institutos como CNR e ISPRA, os registros do Pterois miles vêm aumentando nos últimos anos, indicando uma progressiva colonização de novas áreas costeiras italianas.
Além do impacto ecológico, há uma preocupação direta com a saúde humana: as espinhas do peixe-escorpião injetam um veneno que pode causar dor intensa, inchaço local e, em casos mais graves, sintomas sistêmicos que exigem atendimento médico. Para pescadores, mergulhadores e banhistas, a recomendação é de precaução — evitar o contato, usar equipamentos adequados e encaminhar qualquer ferimento para avaliação clínica imediata.
Este achado em Aci Castello é também um chamado para semear práticas de vigilância científica mais amplas e coordenadas. A entrega de exemplares recolhidos, a documentação rigorosa e a colaboração entre áreas marinhas protegidas, universidades e centros de pesquisa são caminhos para iluminar soluções eficazes. Como curadora de progresso, vejo nesta situação a abertura de um horizonte límpido: é tempo de tecer laços entre ciência, pesca responsável e política ambiental para cultivar respostas que protejam nossos ecossistemas.
Enquanto as investigações prosseguem no laboratório do professor Tiralongo, a comunidade local e os operadores do mar — guiados por informações claras e por práticas seguras — podem ajudar a reduzir riscos imediatos e a fortalecer um monitoramento capaz de conter a expansão de espécies invasoras. É um desafio, mas também uma oportunidade de renovar o compromisso coletivo com a saúde dos mares e com o legado que deixaremos às próximas gerações.






















