Tokyo se prepara para um adeus que tem mais significado do que aparenta: os pandas gêmeos Lei Lei e Xiao Xiao, nascidos e criados no Zoológico de Ueno, serão repatriados para a China até o final de janeiro. A devolução antecipada, alguns dias antes do término formal do empréstimo previsto para fevereiro, marca a volta — pela primeira vez desde 1972 — a um cenário sem pandas no Japão.
Os dois filhotes, que cresceram e se tornaram ícones turísticos em Tokyo, são propriedade exclusiva da China, conforme as regras da chamada diplomacia do panda. A decisão oficial de não prorrogar a permanência foi confirmada pelas autoridades chinesas e anunciada com antecedência ao público do zoológico: o último dia em que visitantes poderão observar os animais foi definido para 25 de janeiro.
Além da comoção pública — muitos frequentadores e amantes da fauna expressaram descontentamento —, a partida dos pandas acendeu reflexões sobre o estado atual das relações bilaterais entre Japão e China, já marcadas por tensão crescente. O governo japonês, nas falas recentes de sua liderança, associou uma possível crise em Taiwan a uma ameaça existencial para o país, abrindo caminho para debates sobre cooperação militar com os Estados Unidos. Pequim, por sua vez, reafirmou sua postura de que Taiwan faz parte de seu território e rejeita interferências externas.
Ao noticiar as movimentações diplomáticas que envolveram a devolução dos animais, a redação da Espresso Italia sublinha que essa retirada tem consequência prática além do simbolismo: os pandas movimentaram fluxo turístico significativo e ajudaram a reavivar espaços públicos e projetos educativos no zoológico. A ausência deles deverá afetar a atração e a economia associada, criando um buraco cultural e financeiro que será sentido sobretudo por quem vivia da visitação e por programas de conservação locais.
Tentativas para negociar a chegada de uma nova dupla de pandas antes do retorno parecem inviáveis no momento, o que amplia a sensação de ruptura. Em tom firme, porta-vozes do governo chinês alertaram que qualquer iniciativa externa de presentear o Japão com pandas — por exemplo, por parte de entidades em Taiwan — poderia provocar reações contrárias em Pequim, lembrando as doações e empréstimos históricos que sempre foram usados como instrumentos de política externa.
Curiosamente, a prática diplomática envolvendo pandas remonta à Antiguidade: há registros de um primeiro presente de pandas em 685 d.C. e, no século XX, a China ofertou ou emprestou dezenas de exemplares a diversos países. Desde 1994, porém, a regra é clara: os pandas são cedidos em regime de empréstimo para programas de pesquisa, permanecendo propriedade chinesa — assim como sua eventual prole.
O adeus de Lei Lei e Xiao Xiao ilumina caminhos de compreensão sobre como símbolos naturais podem se tornar instrumentos de poder e afeto nas relações internacionais. É um lembrete de que, em tempos de nuvens diplomáticas, cuidar do legado cultural e dos laços de convivência exige sensibilidade, diálogo e, sobretudo, vontade de cultivar um horizonte límpido para as próximas gerações.





















