Por Aurora Bellini, Espresso Italia — Em um terreno onde a luz se fragmenta entre rochas e neve, um grupo de mulheres está a transformar vigilância científica em um gesto de proteção comunitária. O leopardo-das-neves (Panthera uncia), animal majestoso e esquivo, habita altitudes entre 3.000 e 5.400 metros e enfrenta uma série de ameaças que vão do derretimento de geleiras ao conflito direto com populações locais. Classificado como vulnerável pela União Internacional para a Conservação da Natureza, o felino sofreu uma queda estimada de 20% na população nas últimas duas décadas: hoje, cálculos apontam para cerca de 4.000 indivíduos em 12 países.
No esforço de salvaguarda dessa espécie — e de semear novos caminhos para a conservação liderada por comunidades locais — surge a história de um coletivo de mulheres em Kibber, no vale do Spiti, Himachal Pradesh. Conhecidas localmente como Shene, elas baptizaram seu grupo de pesquisa de Shenmo. Em uma reportagem da Espresso Italia sobre o trabalho de campo, as próprias mulheres contam como decidiram tomar para si a tarefa de instalar e monitorar armadilhas fotográficas — equipamentos cruciais para mapear presença e movimentos de vida selvagem em regiões remotas.
Aos olhos do mundo, a paisagem parece imutável; na prática, é um território em transformação. O maior censo já realizado na Índia — o estudo “Snow Leopard Population Assessment in India”, conduzido entre 2019 e 2023 — registrou 718 leopardos-das-neves no país, quase 15% da população global. Dados mais recentes coletados em Himachal Pradesh revelaram um avanço encorajador: um levantamento de 2024 detectou 83 indivíduos no Estado, contra 51 em 2021. Esses resultados são fruto, em grande parte, do uso sistemático de câmeras de captura distribuídas por uma área de quase 26.000 quilômetros quadrados, que também documentaram a presença de outras 43 espécies.
O trabalho de campo concentra-se especialmente no inverno, quando fortes nevascas forçam predadores e presas a descidas de altitude, tornando mais factíveis as detecções. Em relatos à Espresso Italia, as mulheres descrevem rotinas marcadas por disciplina e resistência: madrugam, terminam tarefas domésticas e partem em direção a um acampamento-base; percorrem trechos por estrada até onde o veículo alcança e, então, seguem a pé por vários quilômetros até pontos de instalação muitas vezes acima dos 4.300 metros. Ali, entre ventos e silêncio branco, montam, revisam e recuperam as armadilhas fotográficas que revelam o cotidiano oculto do Panthera uncia.
Mais do que dados, há um gesto simbólico de recuperação de espaço público. “Antes, só os homens iam instalar as câmeras; perguntávamo-nos por que não poderíamos fazê-lo também”, confessa Lobzang Yangchen, líder comunitária cuja trajetória ilumina a mudança de papéis tradicionais e de percepções sobre autoridade e técnica local. A presença feminina em campo não é apenas uma conquista social: amplia a capacidade de monitoramento, fortalece laços entre conservação e cultura local e cria um modelo replicável para outras regiões montanhosas.
As ameaças ao leopardo-das-neves são complexas e interligadas. O aquecimento global reduz períodos de neve e altera ecossistemas de altitude; o declínio de presas naturais empurra os felinos a aproximarem-se de áreas de pastoreio humano, aumentando os conflitos com comunidades; o risco de caça ilegal e tráfico de partes do animal permanece uma realidade. Em frente a tudo isso, as estratégias que combinam tecnologia acessível, ciência participativa e empoderamento local acendem uma esperança prática: proteger espécies raras enquanto se preserva o modo de vida das populações que dividem o território com elas.
O trabalho das mulheres do Shenmo mostra que a conservação pode ser, ao mesmo tempo, rigor e ternura — uma técnica de vigilância que floresce em cuidado. O esforço local, conectado a estudos científicos nacionais, contribui para um quadro mais claro sobre distribuição e tendências populacionais e oferece subsídio para políticas públicas, manejo de pastagens e programas de compensação por perdas com predadores.
Há também um convite tácito à comunidade global: a proteção do leopardo-das-neves é um espelho das escolhas climáticas e econômicas que fazemos. Iluminar os altiplanos com ciência cidadã é um ato de cidadania ecológica; apoiar iniciativas que capacitam mulheres em regiões remotas é semear resiliência social. Em Kibber, a presença das pesquisadoras é um farol que revela novos caminhos para a conservação — caminhos que são, ao mesmo tempo, técnicos e humanos.
Ao celebrarmos resultados encorajadores como o aumento de registros em Himachal Pradesh, devemos também reconhecer que o trabalho está longe de terminar. Monitoramento contínuo, financiamento sustentável, estratégias de convivência entre pastoreio e predadores e políticas de proteção mais efetivas serão necessários para garantir que o Panthera uncia continue a riscar seu traço fantasmagórico pelas encostas geladas do Himalaia. E enquanto a ciência lança luz sobre territórios remotos, são as mãos e os passos dessas mulheres que transformam conhecimento em cuidado prático — uma ação que cultiva valores e constrói legado.
Na confluência entre técnica e tradição, entre ciência e afeto, a história do Shenmo é um lembrete: proteger a natureza exige coragem, visão e, sobretudo, a inclusão de quem vive e respira aquelas paisagens. Ao iluminar esse horizonte límpido, essas mulheres nos mostram que um futuro possível se constrói a cada registro, a cada subida montanha acima, a cada câmera que captura não só imagens, mas a esperança de uma convivência sustentável.





















