Por Aurora Bellini, Espresso Italia
Quando perdemos um animal de estimação sentimos um vazio que muitas vezes não cabe em palavras. Essa dor, intensa e duradoura, nem sempre recebe o reconhecimento social e clínico que merece. Um novo estudo vindo da Irlanda ilumina essa realidade e aponta caminhos para que a sociedade e as políticas públicas acolham com mais sensibilidade quem sofre essa perda.
Pesquisadores da Maynooth University, liderados por Philip Hyland, publicaram na revista PLOS ONE uma análise que confirma: a perda de um companheiro de quatro patas pode desencadear um distúrbio de luto persistente, condição que a psiquiatria costuma associar sobretudo à morte de pessoas queridas. A equipe avaliou 975 adultos residentes no Reino Unido, reconstruindo as experiências de luto ao longo da vida e checando a presença de sintomas segundo o padrão global da Organização Mundial da Saúde para classificação de doenças.
Do estudo emergem dados que pedem atenção. Cerca de 32,6% dos entrevistados relataram ter perdido um animal de estimação. Entre esses, praticamente todos já haviam enfrentado também a morte de alguém humano próximo. Ainda assim, mais de um em cada cinco (21%) afirmou que a partida do animal foi o evento mais doloroso que já viveu, superando o impacto de perdas humanas como de parentes, amigos ou parceiros.
Outro número que merece destaque: 7,5% das pessoas que passaram pela perda de um animal preencheram os critérios diagnósticos para o luto prolongado. Esse índice é comparável, e em alguns casos superior, ao observado em certos tipos de luto humano. Em termos práticos, isso significa que uma parcela não negligenciável da população experimenta sofrimento clínico que pode comprometer a vida cotidiana, o trabalho e as relações sociais.
Além do valor científico, há uma dimensão social e política em jogo. A pesquisa aponta para a necessidade de que governos e serviços de saúde mental considerem explicitamente a perda de animais de companhia nas suas políticas de assistência e nas medidas de apoio ao luto. Reconhecer esse tipo de dor é um ato de cuidado coletivo, capaz de iluminar novos caminhos de solidariedade e de construir redes de suporte que respeitem vínculos afetivos não humanos.
Na prática, intervenções possíveis vão desde o oferecimento de aconselhamento específico e grupos de apoio até a discussão sobre direitos práticos, como a concessão de licenças por luto quando a perda impacta severamente a rotina de trabalho. Tais medidas ajudam a semear uma cultura mais empática, em que o sofrimento ganha espaço para ser processado sem estigmas.
Como curadora de histórias e de progresso humano eu vejo nesse tema um convite ao aprimoramento das nossas políticas públicas e das nossas práticas comunitárias. Aceitar que a morte de um animal de estimação pode gerar um luto prolongado é permitir que famílias e indivíduos recebam o acolhimento necessário, preservando a dignidade do vínculo e cultivando um horizonte mais límpido de solidariedade.
Para quem busca orientação sobre como lidar com essa perda, o acervo de textos e relatos da Espresso Italia traz caminhos práticos e afetivos sobre aceitação, rituais de despedida e quando procurar ajuda profissional. Iluminar esse debate é também cuidar do legado das relações que transformam nossas vidas.
Estudo citado: Maynooth University; Philip Hyland; publicação em PLOS ONE. Dados analisados com critérios da Organização Mundial da Saúde.






















