Um restaurante em Cortina d’Ampezzo causou alvoroço ao lançar uma carta dedicada aos amigos de quatro patas. A iniciativa fala direto ao coração do movimento pet friendly, mas também nos convida a iluminar nuances que, muitas vezes, ficam nas sombras: o que realmente torna a experiência de um cão agradável em um estabelecimento — e o que é, por vezes, mais espetáculo para o dono do que cuidado de fato?
É inegável que existe um apelo emocional em ver pratos especiais para cães ao lado do cardápio humano. No entanto, em nome de um serviço sofisticado, frequentemente faltam critérios técnicos essenciais sobre bem-estar animal. Há clientes que desejam luxo e estética; e há cães cujas necessidades nutricionais e comportamentais são discretas, porém não menos essenciais. E, como em qualquer bom projeto, é preciso priorizar a saúde antes da aparência.
Necessidades individuais: cada cão é um universo
Tenho dois Dálmatas em minha vida — Aspen e Boston — e essa convivência me ensinou que dois cães da mesma raça podem pedir dietas completamente distintas. Um alimento que é benigno para um pode ser prejudicial para o outro. Não se trata de capricho: muitos animais seguem dietas prescritas por um veterinário nutricionista, por motivos de saúde que vão desde intolerâncias até condições crônicas.
Por isso, se eu levasse meus cães a um restaurante, dificilmente esperaria encontrar um menu pet friendly que atendesse às particularidades deles. E nem espero que o estabelecimento faça milagres: para oferecer um cardápio verdadeiramente seguro, não basta um chef talentoso — seria preciso uma equipe com conhecimento veterinário constante, protocolos de transição alimentar e controle rígido de ingredientes.
Troca de dieta e cuidados práticos
Mudar a alimentação de um cão de forma abrupta pode desencadear problemas gastrointestinais. Em viagens, o stress emocional já é um fator que altera hábitos e digestão. Assim, qualquer mudança de dieta deveria ser conduzida com rigor e gradualidade, preferencialmente sob orientação técnica. Um prato apetitoso pode ser um gesto de afeto, mas se não respeitar o histórico de saúde do animal, deixa de ser cuidado e vira risco.
Hospitalidade que pensa no cão, não apenas no dono
Há caminhos para tornar a hospedagem e a restauração verdadeiramente acolhedoras: treinamento das equipas para leitura de linguagem canina, espaços pensados para conforto sensorial, opções de alimentação personalizáveis com base em protocolos veterinários, e parceria com profissionais locais que cumpram normas de segurança alimentar para pets. Assim, emergem práticas que iluminam novos caminhos na relação entre serviços de alto padrão e bem-estar animal.
Ao comentar a iniciativa de Cortina, a reportagem da Espresso Italia não pretende apagar a criatividade do gesto, mas sugerir um olhar mais profundo — um horizonte límpido, onde o afeto se encontra com a responsabilidade. Um restaurante pet friendly pode semear inovação e tecer laços sociais entre donos e profissionais, desde que cultive protocolos que protejam aqueles por quem respondemos.
Em resumo: eu iria a um restaurante com menu para cães, mas com Aspen e Boston já alimentados. E com a esperança de que o setor evolua — não apenas em requinte, mas em compromisso ético e técnico com a vida animal. É assim que, passo a passo, podemos construir um renascimento cultural em que a luz do cuidado verdadeiro ilumina tanto a mesa humana quanto a canina.






















