Por Aurora Bellini, Espresso Italia
Na alvorada de um compromisso coletivo com a natureza, o relatório da Legambiente — divulgado em alusão ao Dia Mundial das zonas úmidas (2 de fevereiro) e ao 50º aniversário da ratificação italiana da Convenção de Ramsar — revela um quadro de beleza e urgência: a Itália conta hoje com 63 sítios reconhecidos de importância internacional, distribuídos em 15 regiões e somando 81.091 hectares.
Essas áreas — paludi, pântanos, turfeiras, lagunas e estuários, naturais ou artificiais — são entre os ecossistemas mais ricos em biodiversidade e, ao mesmo tempo, entre os mais pressionados. Cobrem apenas 6% da superfície terrestre global, mas abrigam cerca de 40% das espécies vegetais e animais associadas a ambientes aquáticos, incluindo peixes, aves aquáticas e anfíbios.
O estudo “Ecosistemi acquatici 2026. Insieme per le zone umide”, apresentado pela Legambiente à nossa redação, também aponta um dado global alarmante: segundo o Global Wetland Outlook 2025, foram perdidos aproximadamente 22% da extensão das zonas úmidas mundiais — mais de 400 milhões de hectares. É uma perda que apaga parte do nosso capital natural e reduz a capacidade dos ecossistemas de mitigar e se adaptar às mudanças climáticas.
Na classificação europeia por número de sítios Ramsar, a Itália aparece em quarto lugar, empatada com a Noruega. Lideram o ranking o Reino Unido (176 sítios), seguido por Espanha (76) e Suécia (68); outros países relevantes na lista são Países Baixos (58), França (55), Ucrânia (50), Finlândia (49), Irlanda (45) e Dinamarca (43). Em território nacional, as regiões com maior reconhecimento são Toscana (11 sítios), Emilia-Romagna (10) e Sardenha (9).
O relatório da Legambiente faz um apelo que ecoa como um farol: é preciso ampliar as áreas protegidas, reforçar instrumentos de gestão e envolver as comunidades locais. As pressões humanas — urbanização acelerada, cimentificação, agricultura intensiva — combinadas aos efeitos da crise climática, tornam essas paisagens cada vez mais frágeis. Proteger as zonas úmidas é, ao mesmo tempo, uma medida de justiça ecológica e uma estratégia concreta de adaptação e mitigação climática.
Esses ecossistemas desempenham funções vitais: armazenam carbono, regulam regimes hídricos, protegem costas e deltas, sustentam pesca e culturas locais e oferecem refúgio para espécies migratórias. Ignorar sua conservação é retirar ferramentas essenciais do nosso arsenal contra eventos extremos e perda de biodiversidade.
Ao iluminar esses números e territórios, a missão é dupla: reconhecer o trabalho das associações e das administrações que já zelam por esses espaços e, simultaneamente, semear políticas públicas mais ambiciosas. A Convenção de Ramsar, hoje assinada por 172 países, permanece um guia valioso — mas a realidade pede passos adicionais, territorializados e participativos.
Como curadora de progresso, vejo nas zonas úmidas não apenas um acervo de valores naturais, mas uma oportunidade para tecer resiliência social: projetos de conservação que respeitem saberes locais, soluções baseadas na natureza que sustentem economias circulares e educação ambiental que ilumine novos caminhos para as futuras gerações. É tempo de transformar conhecimento em proteção efetiva, ampliando áreas protegidas e integrando essas paisagens ao planejamento climático nacional.
Em suma: a Itália tem refúgios preciosos — 63 sítios que funcionam como aliados na luta contra a crise climática —, mas é urgente instituir novas áreas protegidas, reforçar a governança e envolver a sociedade civil. Só assim construiremos um horizonte límpido, onde a natureza e as comunidades cresçam juntas.




















