Por Aurora Bellini — Uma parceria inesperada e delicada floresce no subsolo e nas folhas: formigas e lagartas de borboleta mantêm uma comunicação rítmica que sustenta uma relação mutualística vital. Pesquisadores da Università di Torino, da University of Warwick e do Instytut Badawczy Leśnictwa da Polônia investigaram como essas espécies tão distintas conseguem entrar em sintonia — e descobriram que o pulso do contato é parte fundamental dessa linguagem.
Embora já se soubesse que muitas lagartas se beneficiam do cuidado das formigas — sendo levadas aos ninhos, protegidas de predadores e, por vezes, alimentadas — em troca das secreções açucaradas que produzem, a explicação havia se concentrado sobretudo no mimetismo químico. O novo trabalho amplia essa visão: além dos sinais químicos, as lagartas desenvolveram sinais vibroacústicos ritmicamente organizados que atraem e acalmam suas hospedeiras.
Os cientistas analisaram propriedades rítmicas desses sinais em duas espécies de formigas e nove espécies de borboletas com variados graus de mirmecofilia — termo que descreve a propensão de um inseto a formar associações com formigas, seja em relações mutualísticas ou parasitárias. A pesquisa avaliou características como o tempo das sequências de impulsos, os intervalos entre essas sequências e os padrões rítmicos e comparou esses parâmetros entre os táxons.
Os resultados mostram que as espécies com alta mirmecofilia apresentam uma organização rítmica mais complexa, marcada por isocronia e ritmo binário. Essa regularidade temporal parece ser um traço convergente, resultado da intensa interação mutualística: sinais previsíveis e precisos facilitam o reconhecimento entre parceiros, mesmo diante de restrições energéticas e do risco de serem percebidos por outros organismos.
Espécies com associações intermediárias ou ausentes exibiram ritmos mais variáveis ou mais simples, sugerindo que a sofisticação do sinal vibroacústico está ligada à força e necessidade da cooperação. Como explicam os autores no artigo publicado no Annals of the New York Academy of Sciences, padrões rítmicos — como o tempo das cadeias de impulsos e o espaçamento entre elas — variam de acordo com a intensidade da relação ecológica entre as espécies.
“O ritmo é uma parte fundamental da vida humana: dançamos a seu compasso, batemos palmas no tempo e percebemos imediatamente quando algo está fora do lugar”, observa Chiara De Gregorio, pesquisadora da University of Warwick. Ela aponta que, até então, organizações rítmicas complexas eram documentadas sobretudo em primatas; agora vemos sinais de que outras linhagens também podem evoluir padrões temporais sofisticados, iluminando novas perspectivas sobre comunicação interespécies.
Em termos práticos, compreender essa «música» entre insetos abre janelas para aplicações em conservação e manejo: reconhecer como as interações são mantidas e perturbadas pode ajudar a proteger ecossistemas onde essas relações são pilares de redes biológicas. É um convite para iluminar novos caminhos no estudo do comportamento animal, semeando inovação no entendimento das teias de vida que nos cercam.
Este estudo revela que a cooperação entre espécies vai além da química — é também uma coreografia de vibrações, um diálogo rítmico que tece laços e garante benefícios mútuos. Ao decifrar essas batidas sutis, cientistas e conservacionistas podem cultivar estratégias mais finas para preservar interações que sustentam biodiversidade.






















