Por Aurora Bellini — Em um gesto de luz sobre o horizonte da conservação marinha, gravações científicas revelaram a presença da foca-monaca em águas de Montecristo, marcando, pela primeira vez na Itália, uma confirmação acústica dessa espécie emblemática. O achado, resultado de uma releitura cuidadosa de dados, ilumina novos caminhos para a proteção de um dos mamíferos marinhos mais raros do Mediterrâneo.
As evidências emergiram a partir das gravações acústicas subaquáticas coletadas pelo Centro Interdisciplinar de Bioacústica e Pesquisas Ambientais da Universidade de Pavia. Durante uma campanha de monitoramento em 2020, um gravador foi posicionado a cerca de 30 metros de profundidade para captar sons associados a cetáceos, em especial o tursiops. Ao revisitar esses arquivos no contexto de uma tese de mestrado em Conservação da Biodiversidade, Didática e Comunicação Científica, a estudante Federica Soccio identificou vocalizações incomuns que, após análise, foram atribuídas à foca-monaca (Monachus monachus).
Essa descoberta não é apenas um dado técnico: é um sinal de esperança. A área em torno de Montecristo já havia sido protegida desde o fim dos anos 1970, quando o então Ministério da Marinha Mercante instituiu uma Zona de Tutela Biológica — uma medida pioneira que antecipou, por décadas, as práticas atuais de conservação marinha. Mesmo assim, os avistamentos da espécie no Arquipélago Toscano sempre foram raros. Agora, a captação sonora oferece uma nova maneira, não invasiva, de identificar indivíduos de uma espécie notoriamente discreta.
Paralelamente, um segundo hidrofone foi posicionado nas águas protegidas da Ilha de Capraia, entre 20 e 30 metros de profundidade, como parte do projeto CLAPS (CLimate Adaptation Pelagos Sanctuary). O dispositivo visa monitorar a presença acústica dos cetáceos que frequentam o Santuário Pelagos e registrar outros sons marinhos, incluindo ruído de origem antropogênica. Os dados serão periodicamente recuperados para download e, em seguida, o hidrofone será reposicionado para continuar o escuta subaquática. O próximo resgate, condicionado às janelas meteorológicas, poderá trazer novos conjuntos de dados e possivelmente confirmar com ainda mais robustez a presença da foca-monaca na região.
Do ponto de vista científico, tratar-se-ia da primeira gravação acústica de um exemplar de Monachus monachus na Itália — um registro que acrescenta uma camada sonora ao conhecimento já existente, tradicionalmente baseado em avistamentos visuais e amostras de DNA ambiental. Para quem cuida da vida marinha, cada sinal acústico é como uma fagulha que pode acender estratégias de proteção mais eficazes, permitindo semear inovação nas práticas de manejo e na vigilância dessas áreas-santuário.
Enquanto a comunidade científica aguarda a recuperação dos novos dados, a descoberta reforça a importância de técnicas não invasivas e do olhar atento de jovens pesquisadoras. Em tempos em que os ecossistemas marinhos enfrentam pressões crescentes, ouvir é também cuidar: amplificar vozes antes silenciosas é uma maneira concreta de tecer laços entre ciência, políticas públicas e sociedade civil em prol de um renascimento cultural em torno do mar que nos sustenta.
Reportagem e tradução curada por Espresso Italia — Aurora Bellini






















